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UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA


No "pobre Moçambique" viver do salário é algo que se mostrou impossível nos últimos tempos. Milhões de moçambicanos, funcionários têm o seu rendimento mensal dependente do Estado. Poucos são os que se lembram do antigo e sempre novo ensinamento: "da terra originastes, da terra alimentarte-eis, da terra sereis próspero". 


Anos passaram-se, muitos dos que apostaram no emprego decente como a única forma de aquisição da riqueza vê-se obrigados a regressar aos campos de cultivo pois o salário não sai. E se sai, este não cobre as necessidades mais importantes no seio das famílias devido a subida do preço dos bens e serviços. 


A moderna sociedade moçambicana é caracterizada por possuir um excesso de preferências no consumo de bens e serviços essenciais. Isto porque maior parte da classe trabalhadora veio do campo, cansada dos velhos hábitos, da vida medíocre que levavam, das condições alimentares e ambientais precárias. 


Estes pensam estar um passo à frente quando na verdade deram dois passos para trás. Preferem passar o tempo num escritório com boas condições de ventilação mas sem rendibilidade - esta é a preguiça mental, que faz com que ao aproximarmo-nos dos dias 23 de cada mês teçamos reclamações sobre Estado com as mãos a coçar na cabeça, enquanto nos dias anteriores estavam ou encontravam-se nos bolsos, ou sobre uma secretária, ou por entre as pernas.


Nos campos, as mamanas e os papás gritam: "as nossas terras ainda são produtivas. Há de cair sobre o campo a chuva de que tanto precisamos". Nos centros urbanos ouve-se um eco dos assalariados: "as minhas mãos não voltaram a tocar o cabo de enxada. Fazer machamba, eu?" 
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De Alberto Traquinho

TEMA INDEFINIDO




Quotidianamente deparo-me com situações constrangedoras. Umas advindas da carne e outras da alma. 
Em mim encontro uma batalha que pouco sei dizer sob quais circunstâncias iniciou. 
Da alma soam vozes alertando-me sobre as possíveis consequências dos meus actos e factos. Da carne nascem vontades e ilusões que seduzem os meus olhos, atacam a consciência, afugentando a razão.
Em cada parir do sol, sinto que a minha mente embebeda-se do vinho da imperfeição que a natureza humana oferece. Aos muitos a satisfação da parte carnal encarrega-se de arrastar-me ao ponto morto da perfeição. 

De alma dominada e coberta por uma nuvem negra que acompanha os meus dias de juventude, somente penso em diversão como a direcção certa. 

Com miolos dispersos em partes incertas do corpo, pensando com as mãos e agindo com a boca os dias se passam sem ao menos olhar para o lado recto da vida. É como se os olhos tivessem sido rodados à 180° graus, marcando passos para frente enquanto olho a traseira da natureza. Esqueço-me que o futuro depende em grande parte do que se vê à frente, nos lados e não de eventos passados.

"Todo passado já foi presente. O reflexo facial (vida futura) é resultado de uma visão frontal (vida presente)". Alberto Saué (2015)

Educação nas sociedades modernas

1.Breve Abordagem e Conceitos

Neste começo de um novo milénio, a educação apresenta-se numa dupla encruzilhada: de um lado, o desempenho do sistema escolar não tem dado conta da universalização da educação básica de qualidade; de outro, as novas matrizes teóricas não apresentam ainda a consistência global necessária para indicar caminhos realmente seguros numa época de profundas e rápidas transformações. 

A educação corresponde a toda modalidade de influências e inter-relações que convergem para a formação de traços de personalidade social e de carácter, implicando uma concepção de mundo, ideais, valores, modos de agir, que se traduzem em convicções ideológicas, morais, políticas, religiosas, princípios de acção frente a situações reais e desafios da vida prática. Implica, portanto, “uma busca realizada por um sujeito que é o homem” (FREIRE, 1988, p.70). Assim, a educação em cada sociedade assume um conjunto de características peculiares, os seres humanos se educam para que suas vidas tenham significados e sentidos próprios. 

Durante séculos, a acção intencional de educar da humanidade vem sendo modificada, adaptando o ser humano a novas realidades. Ficamos de 6 a 8 mil anos plantando com a intenção de colher. Nesse período, a prática educativa consistia na aquisição de instrumentos para o plantio e para a colheita. Na Idade Média, a acção intencional de educar da humanidade esteve envolvida com a formação do ser humano apoiada pela fé, toda produção era para enriquecimento da Igreja e dos grandes feudos (GRISPUN, 2000).
Na Idade Moderna, início do século XIX, o advento da Revolução Industrial ocasionou a mudança da acção intencional da humanidade com uma recodificação da realidade, empurrando o ser humano para a modernização, consubstanciando a transição da sociedade feudal para a sociedade capitalista burguesa. Nasceu uma nova classe social, a burguesia, e uma nova sociedade, a capitalista. Essa nova organização económica e social influenciou directamente na organização social de hoje: pertencemos a uma sociedade ocidental, capitalista, dividida socialmente em classes sociais: a burguesia e o trabalhador. (LARCHER, 2010: 18) 

No início da Idade Moderna, “a burguesia que se instalava no poder necessitava instrumentalizar-se culturalmente, formar seus quadros, formar o cidadão, preparar as elites para o avanço tecnológico, forjar escalões e difundir sua visão de mundo às camadas populares” (GHIRALDELLI JR, 1991, p.23). Era preciso para tal, uma instituição oficial e eficiente – a Escola, e uma pedagogia eficaz – a Pedagogia Tradicional. Assim, cria-se a Escola, instituição moderna, organizadora de grandes redes de ensino que crescem em consonância com a disseminação da Pedagogia Tradicional.

Para LAKATOS (1990: 211), a sociedade de hoje parece dominada pelas "industrias do conhecimento", que não produzem bens e serviços e sim ideias e informações. Na década de 20, os homens da linha de montagem e os Operadores de maquinas semi-qualificados constituíam o centro da mão-de-obra, inclusive nos países desenvolvidos. "Hoje, o centro e o empregado com conhecimento, o homem ou mulher que aplica ao trabalho produtivo ideias, conceitos e informações, e não habilidade manual ou força muscular.

Actualmente é dominante a tese de que a educação tem um papel fundamental nos processos de desenvolvimento. Algumas agências internacionais, como o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), argumentam que os países pobres devem investir na educação de seu povo para superar suas alarmantes taxas de pobreza. (PACHECO & MENDONÇA, 2012: )

Seja qual for a perspectiva que a educação contemporânea tomar, uma educação voltada para o futuro será sempre uma educação contestadora, superadora dos limites impostos pelo Estado e pelo mercado, portanto, uma educação muito mais voltada para a transformação social do que para a transmissão cultural. Por isso, acredita-se que a pedagogia da práxis, como uma pedagogia transformadora, em suas várias manifestações, pode oferecer um referencial geral mais seguro do que as pedagogias centradas na transmissão cultural, neste momento de perplexidade.

Pela importância dada hoje ao conhecimento, em todos os sectores, pode-se dizer que se vive mesmo na  era do conhecimento, na sociedade do conhecimento, sobretudo em consequência da informatização e do processo de globalização das telecomunicações a ela associado.

Ladislau Dowbor (1998), após descrever as facilidades que as novas tecnologias oferecem ao professor, se pergunta: o que eu tenho a ver com tudo isso, se na minha escola não tem nem biblioteca e com o meu salário eu não posso comprar um computador? Ele mesmo responde que será preciso trabalhar em dois tempos: o tempo do passado e o tempo do futuro.
Hoje vale tudo para aprender. Isso vai além da “reciclagem” e da actualização de conhecimentos e muito mais além da “assimilação” de conhecimentos. A sociedade do conhecimento possui múltiplas oportunidades de aprendizagem: parcerias entre o público e o privado (família, empresa, associações, etc.); avaliações permanentes; debate público; autonomia da escola; generalização da inovação.

As consequências para a escola e para a educação em geral são enormes: ensinar a pensar; saber comunicar-se; saber pesquisar; ter raciocínio lógico; fazer sínteses e elaborações teóricas; saber organizar o seu próprio trabalho; ter disciplina para o trabalho; ser independente e autónomo; saber articular o conhecimento com a prática; ser aprendiz autónomo e a distância.

Como diz Ladislau Dowbor (1998: 259), a escola deixará de ser “lecionadora” para ser “gestora do conhecimento”. Segundo o autor, “pela primeira vez a educação tem a possibilidade de ser determinante sobre o desenvolvimento”.

A educação tornou-se estratégica para o desenvolvimento, mas, para isso, não basta “modernizá-la”, como querem alguns. Será preciso transformá-la profundamente.
Para Dewey, a escola deveria ser um ambiente de formação de um novo homem. Para isso, a sociedade não poderia ofertar uma educação qualquer. Deveria oferecer um processo educativo vivenciado em uma nova escola, pautada em valores democráticos. As práticas democráticas deveriam ser observadas na relação professor-aluno, no material didáctico utilizado, nos métodos pedagógicos aplicados. Todas as acções dessa nova escola deveriam estar voltadas para um objectivo: ter o aluno como actor principal no ambiente escolar.

Dewey pensou e criou um novo ambiente escolar para desenvolver sua proposta pedagógica. A escola é uma instituição em que os indivíduos passam boa parte de suas vidas, transitam da infância para a maioridade. Esse longo período de escolarização deveria ser utilizado para a realização de experiências concretas. Assim, o processo educativo ofereceria aos educandos condições para que resolvessem por si sós seus problemas.

A escola nova requer trabalhadores em educação bem preparados. O educador deve ser sensível para motivar os alunos; perspicaz para descobrir o que motiva as crianças e o que desperta seus interesses. Tendo como ponto de partida os interesses dos alunos, estes se entregariam às experiências que, por sua vez, ganhariam um verdadeiro valor educativo.
Ao mesmo tempo, uma escola democrática, que prioriza os alunos e suas inquietações, desenvolve outras virtudes, como o esforço e a disciplina.

A escola seria, então, um laboratório, um local de experiências que, purificado das imperfeições da sociedade, formaria sujeitos capazes de influir positivamente no meio social, implementando novas estruturas democráticas.

A nova escola formaria indivíduos aptos para uma vida social cooperativa, em que as decisões são obtidas por meio de acordos amparados na livre participação de todos. Ao mesmo tempo, a educação estaria sintonizada com as mudanças que ocorrem no mundo. E propiciaria oportunidades para todos alcançarem as conquistas asseguradas pela sociedade democrática.

A educação actuaria assim, na renovação constante dos costumes e não na sua preservação. No entanto, tal renovação de costumes tem como limite a sociedade democrática. Caso fosse supostamente atingida essa meta, não haveria o que mudar na sociedade.