1.Breve Abordagem e Conceitos
Neste começo de um novo milénio, a
educação apresenta-se numa dupla encruzilhada:
de um lado, o desempenho do sistema escolar não tem dado conta da
universalização da educação básica de qualidade; de outro, as novas matrizes
teóricas não apresentam ainda a consistência global necessária para indicar
caminhos realmente seguros numa época de profundas e rápidas transformações.
A educação corresponde a toda
modalidade de influências e inter-relações que convergem para a formação de
traços de personalidade social e de carácter, implicando uma concepção de
mundo, ideais, valores, modos de agir, que se traduzem em convicções
ideológicas, morais, políticas, religiosas, princípios de acção frente a
situações reais e desafios da vida prática. Implica, portanto, “uma busca
realizada por um sujeito que é o homem” (FREIRE, 1988, p.70). Assim, a educação
em cada sociedade assume um conjunto de características peculiares, os seres
humanos se educam para que suas vidas tenham significados e sentidos próprios.
Durante séculos, a acção
intencional de educar da humanidade vem sendo modificada, adaptando o ser
humano a novas realidades. Ficamos de 6 a 8 mil anos plantando com a intenção
de colher. Nesse período, a prática educativa consistia na aquisição de
instrumentos para o plantio e para a colheita. Na Idade Média, a acção
intencional de educar da humanidade esteve envolvida com a formação do ser
humano apoiada pela fé, toda produção era para enriquecimento da Igreja e dos
grandes feudos (GRISPUN, 2000).
Na Idade Moderna, início do século
XIX, o advento da Revolução Industrial ocasionou a mudança da acção intencional
da humanidade com uma recodificação da realidade, empurrando o ser humano para
a modernização, consubstanciando a transição da sociedade feudal para a
sociedade capitalista burguesa. Nasceu uma nova classe social, a burguesia, e
uma nova sociedade, a capitalista. Essa nova organização económica e social
influenciou directamente na organização social de hoje: pertencemos a uma
sociedade ocidental, capitalista, dividida socialmente em classes sociais: a
burguesia e o trabalhador. (LARCHER, 2010: 18)
No início da Idade Moderna, “a
burguesia que se instalava no poder necessitava instrumentalizar-se
culturalmente, formar seus quadros, formar o cidadão, preparar as elites para o
avanço tecnológico, forjar escalões e difundir sua visão de mundo às camadas
populares” (GHIRALDELLI JR, 1991, p.23). Era preciso para tal, uma instituição
oficial e eficiente – a Escola, e uma pedagogia eficaz – a Pedagogia
Tradicional. Assim, cria-se a Escola, instituição moderna, organizadora de
grandes redes de ensino que crescem em consonância com a disseminação da Pedagogia
Tradicional.
Para LAKATOS (1990: 211), a
sociedade de hoje parece dominada pelas "industrias do conhecimento",
que não produzem bens e serviços e sim ideias e informações. Na década de 20,
os homens da linha de montagem e os Operadores de maquinas semi-qualificados
constituíam o centro da mão-de-obra, inclusive nos países desenvolvidos.
"Hoje, o centro e o empregado com conhecimento, o homem ou mulher que
aplica ao trabalho produtivo ideias, conceitos e informações, e não habilidade
manual ou força muscular.
Actualmente é dominante a tese de
que a educação tem um papel fundamental nos processos de desenvolvimento.
Algumas agências internacionais, como o Banco Mundial e a Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), argumentam que
os países pobres devem investir na educação de seu povo para superar suas
alarmantes taxas de pobreza. (PACHECO & MENDONÇA, 2012: )
Seja qual for a perspectiva que a
educação contemporânea tomar, uma educação voltada para o futuro será sempre
uma educação contestadora, superadora dos limites impostos pelo Estado e pelo
mercado, portanto, uma educação muito mais voltada para a transformação social
do que para a transmissão cultural. Por isso, acredita-se que a pedagogia da
práxis, como uma pedagogia transformadora, em suas várias manifestações, pode
oferecer um referencial geral mais seguro do que as pedagogias centradas na
transmissão cultural, neste momento de perplexidade.
Pela importância dada hoje ao
conhecimento, em todos os sectores, pode-se dizer que se vive mesmo na era do conhecimento, na sociedade do
conhecimento, sobretudo em consequência da informatização e do processo de
globalização das telecomunicações a ela associado.
Ladislau Dowbor (1998), após
descrever as facilidades que as novas tecnologias oferecem ao professor, se
pergunta: o que eu tenho a ver com tudo
isso, se na minha escola não tem nem biblioteca e com o meu salário eu não
posso comprar um computador? Ele mesmo responde que será preciso trabalhar
em dois tempos: o tempo do passado e o tempo do futuro.
Hoje vale tudo para aprender. Isso
vai além da “reciclagem” e da actualização de conhecimentos e muito mais além
da “assimilação” de conhecimentos. A sociedade do conhecimento possui múltiplas
oportunidades de aprendizagem: parcerias entre o público e o privado (família,
empresa, associações, etc.); avaliações permanentes; debate público; autonomia
da escola; generalização da inovação.
As consequências para a escola e
para a educação em geral são enormes: ensinar a pensar; saber comunicar-se;
saber pesquisar; ter raciocínio lógico; fazer sínteses e elaborações teóricas;
saber organizar o seu próprio trabalho; ter disciplina para o trabalho; ser
independente e autónomo; saber articular o conhecimento com a prática; ser
aprendiz autónomo e a distância.
Como diz Ladislau Dowbor (1998:
259), a escola deixará de ser “lecionadora” para ser “gestora do conhecimento”.
Segundo o autor, “pela primeira vez a educação tem a possibilidade de ser
determinante sobre o desenvolvimento”.
A educação tornou-se estratégica
para o desenvolvimento, mas, para isso, não basta “modernizá-la”, como querem
alguns. Será preciso transformá-la profundamente.
Para Dewey, a escola deveria ser
um ambiente de formação de um novo homem. Para isso, a sociedade não poderia
ofertar uma educação qualquer. Deveria oferecer um processo educativo
vivenciado em uma nova escola, pautada em valores democráticos. As práticas
democráticas deveriam ser observadas na relação professor-aluno, no material
didáctico utilizado, nos métodos pedagógicos aplicados. Todas as acções dessa
nova escola deveriam estar voltadas para um objectivo: ter o aluno como actor
principal no ambiente escolar.
Dewey pensou e criou um novo
ambiente escolar para desenvolver sua proposta pedagógica. A escola é uma
instituição em que os indivíduos passam boa parte de suas vidas, transitam da
infância para a maioridade. Esse longo período de escolarização deveria ser
utilizado para a realização de experiências concretas. Assim, o processo
educativo ofereceria aos educandos condições para que resolvessem por si sós
seus problemas.
A escola nova requer trabalhadores
em educação bem preparados. O educador deve ser sensível para motivar os
alunos; perspicaz para descobrir o que motiva as crianças e o que desperta seus
interesses. Tendo como ponto de partida os interesses dos alunos, estes se
entregariam às experiências que, por sua vez, ganhariam um verdadeiro valor
educativo.
Ao mesmo tempo, uma escola
democrática, que prioriza os alunos e suas inquietações, desenvolve outras
virtudes, como o esforço e a disciplina.
A escola seria, então, um
laboratório, um local de experiências que, purificado das imperfeições da
sociedade, formaria sujeitos capazes de influir positivamente no meio social,
implementando novas estruturas democráticas.
A nova escola formaria indivíduos
aptos para uma vida social cooperativa, em que as decisões são obtidas por meio
de acordos amparados na livre participação de todos. Ao mesmo tempo, a educação
estaria sintonizada com as mudanças que ocorrem no mundo. E propiciaria
oportunidades para todos alcançarem as conquistas asseguradas pela sociedade
democrática.
A educação actuaria assim, na
renovação constante dos costumes e não na sua preservação. No entanto, tal
renovação de costumes tem como limite a sociedade democrática. Caso fosse
supostamente atingida essa meta, não haveria o que mudar na sociedade.