UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA
No "pobre Moçambique" viver do salário é algo que se mostrou impossível nos últimos tempos. Milhões de moçambicanos, funcionários têm o seu rendimento mensal dependente do Estado. Poucos são os que se lembram do antigo e sempre novo ensinamento: "da terra originastes, da terra alimentarte-eis, da terra sereis próspero".
Anos passaram-se, muitos dos que apostaram no emprego decente como a única forma de aquisição da riqueza vê-se obrigados a regressar aos campos de cultivo pois o salário não sai. E se sai, este não cobre as necessidades mais importantes no seio das famílias devido a subida do preço dos bens e serviços.
A moderna sociedade moçambicana é caracterizada por possuir um excesso de preferências no consumo de bens e serviços essenciais. Isto porque maior parte da classe trabalhadora veio do campo, cansada dos velhos hábitos, da vida medíocre que levavam, das condições alimentares e ambientais precárias.
Estes pensam estar um passo à frente quando na verdade deram dois passos para trás. Preferem passar o tempo num escritório com boas condições de ventilação mas sem rendibilidade - esta é a preguiça mental, que faz com que ao aproximarmo-nos dos dias 23 de cada mês teçamos reclamações sobre Estado com as mãos a coçar na cabeça, enquanto nos dias anteriores estavam ou encontravam-se nos bolsos, ou sobre uma secretária, ou por entre as pernas.
Nos campos, as mamanas e os papás gritam: "as nossas terras ainda são produtivas. Há de cair sobre o campo a chuva de que tanto precisamos". Nos centros urbanos ouve-se um eco dos assalariados: "as minhas mãos não voltaram a tocar o cabo de enxada. Fazer machamba, eu?"
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De Alberto Traquinho