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Resumo da Obra "Ninguém Matou Suhura" de Lilia Momplé: por Alberto Traquinho



1. Biografia da autora

Lília Maria Clara Carrière Momplé nasceu em 19 de Março de 1935, na mítica Ilha de Moçambique, localizada ao norte do país, na província de Nampula. Concluiu seus estudos secundários na capital da colónia, na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo). Na universidade, frequentou durante dois anos o curso de Filologia Germânica, deixando-o para formar-se em Serviço Social no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Depois de uma temporada na Grã-Bretanha (durante 1964) e de outra no Brasil (de 1968 a 1971), a escritora regressa definitivamente a Moçambique no ano de 1972.
Encerrados os seus estudos em Lisboa, Lília Momplé trabalhou como funcionária da Secretaria de Estado da Cultura como directora do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural de Moçambique (FUNDAC) e como secretária-geral da Associação de Escritores de Moçambique (AEMO), durante o período de 1995 a 2001. De 1997 a 2001, acumulou, juntamente com a função de secretária-geral da AEMO, a função de presidente da Instituição. Durante o período em que esteve na Presidência da Associação, não mediu esforços para aumentar a visibilidade das mulheres nas publicações da Instituição. Foi também representante do Conselho Executivo da Unesco, no período compreendido entre 2001 e 2005.
Apesar de suas colaborações dispersas na imprensa, Lília Momplé destaca-se no cenário da literatura moçambicana por seus três livros: Ninguém matou Suhura (contos, 1988), Neighbours (romance, 1996) e Os olhos da cobra verde (contos, 1997). Em 2001, foi agraciada com o Prêmio Caine para Escritores de África, com o conto “O baile de Celina”. Além desse prémio, recebeu também o 1º Prêmio de Novelística no Concurso Literário do Centenário da Cidade de Maputo, com o conto “Caniço”. Esses dois contos foram originalmente publicados em seu primeiro livro, Ninguém matou Suhura. Lília Momplé tem livros traduzidos para o inglês e o alemão por editoras de reconhecido prestígio, tal como a Heinman.

13. Resumo da obra

Aconteceu em Saua-Saua

Mussa Racua aproxima-se lentamente da palhota de Abudo. Todo o cansaço de um dia inteiro de caminhadas infrutíferas se concentra no olhar, cuja melancolia serenidade reflecte uma tristeza sem esperança. […]
Abudo á a sua última esperança. Contudo, uma esperança tão remota e fugidia que, longe de o animar, o enche de pavor. Não recua só para justificar a si próprio que lutou até ao fim.
[...]. Dão-se as mãos à maneira dos macuas do litoral, apertando-as duas vezes, obliquamente. […]. Abudo já deve saber o que o amigo procura. As palhotas de Saua-Saua são dispersas, mas, por qualquer estranha razão, as notícias de morte e de desgraça propagam-se rapidamente, como que levadas pela inquieta aragem que acaricia as folhas das mangueiras.
[…] – Mas tu já viste, irmão, que vida é a nossa? – interrompe Mussa Racua – vem essa gente da Administração e marca-te um terreno. Dão-te sementes que não pediste e dizem: tens que tirar daqui três ou seis ou sete sacos, conforme lhes dá na cabeça. E se por qualquer razão adoecemos ou não cai chuva ou a semente é ruim, e não conseguimos entregar o arroz que eles querem, lá vamos nós parar às plantações. E os donos das plantações ficam contentes porque conseguem uma data de homens para trabalhar de graça. E a gente da Administração fica contente porque recebe dos donos das plantações um tanto por cabeça que entrega. E nós é que vamos rebentando de medo e de trabalho todos os anos. E mal podemos cuidar das nossas machambas que nem dão para comer.
[…]. A plantação é terror de todos os negros, mesmo daqueles que nunca lá estiveram. Abudo tem sido um bom amigo. Muitas vezes o salvara da plantação emprestando-lhe todo o arroz que lhe sobrava, depois de entregar o exigido pela Administração. […]
E de repente, a solução há tanto tempo procurada surge-lhe tão simples, tão natural, tão evidente, que se admira de a não ter encontrado muito antes.
Na escuridão enluarada do pequeno quarto sente a mulher a dormir um sono agitado […].
Maissa só acorda com a primeira claridade da amanhã e, num instante põe-se fora da quitanda. […]. Apesar do alegre coro da passarada que canta nos ninhos pendentes das árvores, o silêncio da palhota oprime-lhe o coração. Onde estará o marido? Porque não o ouve ela esta manhã? […]
O ventre pesa-lhe, mas ela começa a correr como se quisesse chegar a tempo de impedir uma desgraça. Sempre a correr resolve ir  a estrada principal. Mas, pouco a pouco, o pressentimento que lhe oprime o peito vai-se tornando uma certeza. Já não corre nem grita […] . E é quase sem surpresa que, ao dobrar um carreiro, dá cm o corpo de Mussa Racua suspenso de uma mangueira, balouçando docemente ao sabor da brisa matinal. Tomado no chão, um saco cheio de arroz
Horas depois, um camponês seco e esfarrapado é introduzido quase à força no gabinete do administrador. […]. È, pois, com verdadeiro alívio que recebe ordem para se retirar e apressa-se a sair às arrecuas, arrastando as pernas magras e trémulas.
Sem o ver, o administrador segue-o com os olhos até à posta. Depois, voltando-se para o Língua, mas falando mais para si próprio, desabafa com uma raiva impaciente: - Estes cães assim que lhes cheira trabalho, arranjam sempre chatices. Ou fogem ou suicidam-se. Maldita raça!

O caniço

Como sempre, Naftal desperta sem vontade. O quarto onde dorme cheira a suor e a mofo, pois é um compartimento demasiado pequeno para albergar quatro pessoas. […]. O pai trabalhou vários anos nas minas do John e de vez em quando vinha visitar a família. […]. Efectivamente, pouco tempo depois de o pai ter partido, receberam a notícia da sua morte. As minas tinham-lhe comido as forças e a carne, como a tantos outros negros parte de Moçambique perseguindo sonhos de riqueza. […]
Entretanto a carreira de Aidinha como prostituta foi fulgurante e breve. Apesar da fakta de experiencia, ou talvez por isso mesmo, ela agradava aos homens que procuravam a casa da Aurora Caldeira […]. Aí, os frequentadores dos cabarés disputavam-na, chegando alguns sul-africanos brancos a evolverem-se à pancada por sua causa. Ela, por sua vez, sugava-lhes o dinheiro, e deleitava-se a vê-los esmurrarem-se por causa de uma negra. […]. Só quando passou a escarrar sangue se convenceu que estava realmente doente. E então, já nem teve forças para impedir que as companheiras a levassem para o hospital.
[…]. E assim Aidinha regressou à palhota, onde se encontra há cerca de um mês. Passa os dias deitada, impregnando o quarto do forte cheiro a bolacha característico dos tuberculosos e morrendo um pouco em cada dia.
Naftal aceita a doença e a morte próxima da irmã como aceitou a morte do pai nas minas do John, a miséria quotidiana, o medo e as humilhações. Para ele, tudo faz parte do destino dos negros. Por isso, como sempre, hoje também desperta sem vontade, pois nada espera do dia que começa. […]
[…]. Ao ouvi-lo, um dos irmãozinhos corre a estender-lhe a esteira. Naftal deita-se logo, de costas, com as palmas das mãos voltadas para cima, sentindo a dor que nasce na porta dos dedos irradiando por todo o corpo, como um arrepio de febre. […]. Contudo, quando o sol começa a penetrar pelas frestas das paredes de caniço, Naftal acorda, embora, como sempre, desperte sem vontade.
Estendidos na esteira, os irmãos ainda dormem, respirando suavemente de boca aberta. No quarto ao lado, Aidinha tosse. De uma palhota próxima chega o choro precocemente tímido de uma criança […].

O baile da Celina

- É lindo! - Suspira Leonor, contemplando o vestido. D. Violante não responde, mas o rosto resplandece-lhe de orgulho ao pendurar a obra-prima que lhe sai das mãos. Acaba de dar os últimos pontos no vestido de organza branca que sua filha Celina levará ao baile dos finalistas do Liceu Salazar. […]. Dr. Bordalo Monteiro (pai de Maria Claudina), Benjamim Castelo, Muaziza.
Maria Claudina tinha dezoito anos quando catarino da Silva a pediu em casamento. E para a surpresa de todos, e um pouco dele próprio, foi aceite. A rapariga seguiu certamente os conselhos da mãe que, depois do que sofrera com a família nobre do marido considerava uma verdadeira bênção o casamento da filha com um homem simultaneamente plebeu e riquíssimo. A boda realizou-se com grande pompa. […].
Um dia, ao chegar a casa para almoçar, não encontrou Muaziza nem a filha. Sobre a mesa posta estava o seu almoço ainda quente em travessas bem tapadas.
[…]. Quando o Catarino da Silva tomou conhecimento da fuga de Muaziza, felicitou o sócio com grandes demonstrações de júbilo. – Ó homem, foi a sorte grande que te saiu – bradava ele, rodopiando com o seu passinho saltitante – estava a ver que nunca mais te safavas da negra. Fugiu e fez ela muito bem. Espertalhona como é, deve ter percebido que já era altura de cavar. Teve mais juízo que tu com os teus tolos escrúpulos em manda-la embora. E quanto à mulatinha, deixa-a estar com a mãe. […] A escolha recaiu na jovem Maria Adelaide, única filha do patrão da Capitania do Porto. Não era ao partido tão brilhante como a mulher de Catarino da Silva. Mas era uma rapariga de trato afável […]
Com efeito, o «baile dos finalistas» do Liceu Salazar é considerado, todos os anos, o maior acontecimento social de Lourenço Marques. Para além dos professores, alunos e seus familiares, a ele só tem acesso a mais alta burguesia colonial, e conta coma presença do próprio Governador-Geral. Apesar disso, - pensa D. Violante – ela, o marido e a filha, uns simples mulatos, lá estarão graças ao facto de Celina ter chegado ao 7º ano.
[…] - Precisamos conversar – diz o reitor por fim, pondo a caneta em cima do mata-borrão.
[…]. Quero avisar-vos que não podem ir ao baile dos finalistas – prossegue calmamente o reitor, pousando nos jovens o seu olhar ausente míope…
Celina não pode acreditar no que está a ouvir. As fontes latejam-lhe e uma náusea incontrolável amortece-lhe os sentidos. Dificilmente consegue permanecer de pé, a ouvir a voz do reitor que lhe soa tão suave, tão longínqua […]. - Sem dúvida que vocês compreendem – continua ele – há certas coisas que é preciso dar tempo ao tempo. Vem o senhor Governador-Geral e pessoas que não estão habituadas a conviver com gente de cor. E vocês também não haviam de sentir-se à vontade no meio delas! Para evitar aborrecimentos de parte a parte, achamos melhor vocês não irem ao baile. Seria muito aborrecido que…
Depois de deixar o gabinete do reitor, Celina não voltou ao salão nobre. Saiu apressadamente do Liceu e pôs-se a vaguear sem destino pelas ruas, e Quenado cansada e um pouco febril, regressa enfim a casa, já o pai tinha ido para o trabalho e a mãe está a descansar no quarto.
Quando mais tarde, D. Violante vai de novo trabalhar para a sala de costura, dá logo pela falta do vestido de Celina que deixara pendurado. Sorrindo intimamente, dirige-se para o pequeno quarto onde dorme a filha, pois calcula que tenha sido ela quem levou o vestido, talvez para o apreciar melhor. Mas o que observa, ao abrir a porta, deixa-a muda de espanto e indignação. Sentada na cama, Celina corta, à tesoura, o seu lindo vestido branco. – Estás doida?! – Grita a mãe, passado o primeiro momento de estupefacção. Celina não responde, nem sequer levanta os olhos. Calmamente, determinadamente, continua a cortar o vestido em pequeninos pedaços que se espalham pelo chão como frágeis e vaporosas nuvens desfeitas pelo vento.

Ninguém matou Suhura

O senhor administrador acaba de abotoar o último botão do safari cor de amêndoa. A imagem que o espelho lhe devolve não lhe desagrada […]. Sente-se em perfeita forma quanto ao seu aspecto físico. Além disso, tem plena consciência da auréola que o envolve devido à elevada posição que ocupa na Ilha, onde é simultaneamente Administrador de Distrito e Presidente da Câmara. […]
Na sala de jantar o senhor administrador toma o pequeno-almoço, aguarda-o o velho Assane. Impecavelmente fardado de branco, afasta-lhe a cadeira para se sentar e serve-o em silêncio com gestos sóbrios e precisos. […]
Sorri intimamente à perspectiva da aventura desta tarde. Não é a primeira nem será a última. Sente-se ainda jovem e com direito a procurar fora do lar a satisfação de necessidades que considera legítimas. […]
A macuazinha que o espera esta tarde, conheceu-a na rua do celeiro. Passeava ele de riquexó numa tarde quente e a rapariga caminhava à sua frente com duas companheiras, em direcção ao merca de peixe. De repente, num movimento breve e ocasional ela olhou para trás a rir. E a impressão que nesse instante o seu rosto causou ao senhor administrador jamais ele a soube definir.
Na semipenumbra do seu quarto e abafado, Suhura acorda sorrindo ao novo dia que desponta. Contudo, não tem qualquer motivo para sorrir. Aos quinze anos é analfabeta, órfã de pai e mãe extremamente pobre. Além disso, vai morrer antes de o dia findar.
São cinco horas da manhã. Porém a luz do dia já penetra a jorros iluminando cruamente o quarto de mataca carcomida e tecto sem forro, onde se atracavam a quitanda de Suhura, uma velha mala de latão assente sobre quatro pedregulhos, e a quitanda da avó. […]
A atitude insólida da avó deixa a rapariga confusa e sem vontade de se ocupar das suas tarefas diárias. Mesmo assim, em pouco tempo varre e limpa o minúsculo quintal e a palhota que e também pequena e quase desprovida de moveis. Em seguida, […]. Dos quintais chegam vozes abafadas de mulheres. Crianças nuas, de ventres inchados brincam à soleira das portas escancaradas das palhotas. De vez em quando, uma fila de patos marrecos atravessa as ruelas de repente deixando atrás de si um rasto de fezes.
Seis vezes tem ela que fazer o percurso que separa a palhota do fontenário. Deita-se depois, exausta, no meio do quintal. Não se movem, a não ser para de vez em quando enxotar as moscas que zumbem encarniçadas á sua volta. […] Não consegue afastar do pensamento imagem da avó fitando-a em silêncio e carregando penosamente o quitundo dos mucates. […]
No fim dia, o senhor administrador não pode reprimir um gesto de contrariedade quando, ao abrir a porta do quarto onde se encontra Suhura, depara com ela de pé e completamente vestida. Também lhe desagrada o medo tão patente nos olhos da rapariga. – mas esta gaja está mesmo morta de susto! – pensa ele enquanto se despe. […] Como se aguardasse apenas tal convite para agir. Suhura precipita-se para a porta e o senhor administrador quase não chega a tempo de impedir-lhe a fuga. Com uma calma que está longe de sentir, fecha a porta e vai pôr a chave no bolso das suas calças.
Suhura sente agora que não pode tolerar qualquer contacto físico com este desconhecido que avança para ela, com o ventre a tremer, e procura fugir-lhe a todo custo. Trava-se então uma luta surda e feroz que o desejo cego do senhor administrador e desespero da rapariga prolongam até à exaustão vence o mais forte. Num breve instante, o homem e a rapariga encaram-se de frente.
Mas a verdade é que Suhura recusara ser possuída pelo ilustre e este tentando forçar a menor a manter relações sexuais com sigo, terá entrado numa furiosa e estúpida agitação que terá causado a morte da Suhura. O corpo inerte conserva uma obstinada atitude de recusa e uma flor de sangue contorna-lhe as magras coxas. […]
Para além de um irritado espanto, o senhor administrador sente apenas uma estranha curiosidade em conhecer a causa desta morte: teria violentado a rapariga de tal modo que provocasse uma hemorragia fatal? Ou, no meio da sua estúpida agitação, teria ela própria batido com a nuca na cabeceira da cama? Ou morrera de puro susto?

O último pesadelo

- Não…não…não podem… não podem fazer isso… oh não… nããão…. Flora acorda sobressaltada com os gritos do marido que, sentado na cama, a fixa com os olhos vítreos e o rosto alagado em suor. […]
Foi em 1961, na Gabela, onde Eugénio vivia há cerca de um ano. Embora residisse há tão pouco tempo nessa vila. Nasceu em Espinho, conhecida praia do norte de Portugal […]. Um dia, tinha ele doze anos, a mãe, cansada as constantes aventuras extra-conjugadas do marido e os inerentes mais tratos, resolveu fugir de casa com um homem que há muito a cortejava sem que fosse correspondido.
[…] Eugénio e o agrimensor mantinham longas conversas sobre o memento político que viviam. E a sua secreta simpatia ia para o M.P.L.A, pois o profundo sentido de justiça que ambos possuíam levava-os a concordar que os angolanos lutassem pela independência da sua terra, mão grado os privilégios pessoais que viessem a perder.
A grande maioria embriagava-se com os slogans profundamente difundidos pela rádio e pela imprensa. E descansavam a sua consciência no cómodo preconceito de que todos os guerrilheiros eram terroristas, incapazes de governar, e que Angola pertencia de direito aos portugueses. Eugénio evitava discutir este assunto com quem quer que fosse, á excepção do agrimensor. […]
Eram cerca de dez horas da noite quando já deitado, Eugénio ouviu os primeiros gritos. Largou o livro que estava a ler e pôs-se à escuta. Era, brados lancinantes e desesperados que o fizeram saltar da cama e correr para o local donde eles provinham. Este devia ser o quarto de arrecadação do hotel pois objectivos velhos ou quebrados que deviam estar por ali espelhados, atravancam-se nos cantos e junto às paredes. […]
Eugénio relacionou então o silêncio e os olhares cúmplices dos hóspedes na sala de jantar com o que estava a desenrolar-se à sua frente. Entretanto, o sangue esguichava por todos os lados, empapando os negros e atingindo já as paredes e alguns espectadores. O velho Sabonete quase morto, quando reconheceu Eugénio entre os espectadores que se aglomeravam junto à porta, tentou arrastar-se até ele, fitando-o com olhos suplicantes. Eugénio sempre o tratara, pelo menos, com humanidade, além disso, estabelecera-se entre eles uma espécie de alegre camaradagem, baseada no senso de humor que ambos possuíam. […]
- Parem! – gritou Eugénio a tremer – Não podem fazer isto! Parem! Ele próprio se admirou da força dos seus gritos, a ponto de ter dominado aquele alarido infernal. Os outros colonos encaram-no estupefactos, deixando de berrar e de brandir os paus.
 - O que foi? – perguntou por fim Osório, suspendendo as chambocadas e virando, de má vontade, o rosto suado e sulpicado […]
Eram duas horas da madrugada quando o último negro se imobilizou no chão. Houve depois, da parte dos assistentes, a preocupação de verificar se na verdade os negros estavam todos mortos. Satisfeitos com o exame, arrumaram os corpos depois serem enterrados no mato. Só depois então Regalo permitiu que Eugénio se retirasse.
 - Agora podes ir, bandido. Some-te da minha vista! – gritou acentuando propositadamente o tratamento por tu.
Desse último instante Eugénio guarda a lembrança de corpos intumescidos, pedaços de miolos colados nas paredes, e um cheiro intenso a fezes e a sangue. […] Deixou-se ficar imóvel de olhos fechados, sentindo a brisa acariciar-lhe o rosto escaldante. Já o dia começava a clarear quando ouviu alguém chamar por si. Era Osório em frente de um grupo agitado e ruidoso.
[…]. Eugénio olhou-o incrédulo. Por um momento pensou que o outro estivesse a zombar dele, mas logo compreendeu que não. falava sério. Do seu ponto de vista, se Eugénio tinha boa pontaria, porque não havia de acabar com um negro moribundo? Queria responder, a todo o grupo que aguardava ansiosamente a sua resposta, que não era um assassino e não desejava participar naquele massacre. Mas tinha a certeza que ninguém lhe perdoaria tais palavras. […].
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Resumo da Obra "Capitães de Areia" de Jorge Amado



Resumo da obra "CAPITÃES DE AREIA" de Jorge Amado
Crianças ladronas
As aventuras sinistras dos "Capitães da Areia" - A cidade infestada por crianças que vivem do furto - urge uma providência do Juiz de Menores e do chefe de polícia - ontem houve mais um assalto […]. Essas crianças que tão cedo se dedicaram à tenebrosa carreira do crime não têm moradia certa ou pelo menos a sua moradia ainda não foi localizada. Como também ainda não foi localizado o local onde escondem o produto dos seus assaltos, que se tornam diários, fazendo Jus a unia Imediata providência do Juiz de Menores e do dr. Chefe de Polícia. […] São chamados de "Capitães da Areia" porque o cais é o seu quartel-general. E têm por comandante um mascote dos seus 14 anos, que é o mais terrível de todos, não só ladrão, como já autor de um crime de ferimentos graves, praticado na tarde de ontem. Infelizmente a Identidade deste chefe é desconhecida.

Na residência do comendador José Ferreira
No Corredor da Vitória, coração do mais chique bairro da cidade, se eleva a bela vivenda do Comendador José Ferreira, dos mais abastados e acreditados negociantes desta praga, com loja de fazendas na rua Portugal. É um gosto ver o palacete do comendador, cercado de jardins, na sua arquitectura colonial. Pois ontem esse remanso de paz e trabalho honesto passou uma hora de indescritível agitação e susto com a invasão que sofreu por parte dos "Capitães da Areia".
Os relógios badalavam as três horas da tarde e a cidade abafava de calor quando o jardineiro notou que algumas crianças vestidas de molambos rondavam o jardim da residência do comendador. O jardineiro tratou de afastar da frente da casa aqueles incómodos visitantes […]. A polícia tomou conhecimento do fato, mas até o momento que escrevemos a presente nota nenhum rastro dos "Capitães da Areia" foi encontrado.
Os moradores do aristocrático bairro estão alarmados e receosos de que os assaltos se sucedam, pois este não é o primeiro levado a efeito pelos "Capitães da Areia". Urge uma providência que traga para semelhantes malandros um justo castigo e o sossego para as nossas mais distintas famílias […]. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. […] Na primeira noite não dormiu, ocupado em despedaçar ratos que passavam na sua frente. Dormiu depois de algumas noites, ladrando à lua pela madrugada, pois grande parte do teto já ruíra e os raios da lua penetravam livremente, iluminando o assoalho de tábuas grossas […].E os ratos voltaram a dominas até que os Capitães da Areia lançaram as suas vistas para o casarão abandonado […]. É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem 15 anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia […]. Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.

Noite dos capitães da areia
A grande noite de Paz da Bahia veio do Cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas. Os sinos já não tocam as ave-marias que as seis horas há muito que passaram. E o céu está cheio de estrelas, se bem a lua não tenha surgido nesta noite clara. O trapiche se destaca na brancura do areal, que conserva as marcas dos passos dos Capitães da Areia, que já se recolheram.
[…] João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tomara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre. […] Apelidaram-no de Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços níqueis e também porque, contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as estrelas da noite da Bahia […]
Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de gritos. João Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrídula e fanhosa. O Sem-Pernas falava alto, ria muito. Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na imensidão agressiva da cidade.

 Ponto das Pitangueiras
Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o céu, mirando a rua deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o último dos bondes da linha de Brotas naquela noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que fazia, gastou três fósforos. Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um frio húmido que o vento trazia das chácaras onde balouçavam mangueiras e sapotizeiros. Os três meninos esperavam que o guarda andasse para poder atravessar de um lado para o outro da rua e entrar na travessa sem calçamento […]. O Querido-de-Deus afirmava o homem viria, o camarada que lhe dera a informação era um sujeito seguro. Era negócio para render muito e o Querido-de-Deus preferia chamar os Capitães da Areia, seus amigos, a um dos malandros do cais […].

As luzes do carrossel
O Grande Japonês não era senão um pequeno carrossel nacional, que vinha de uma triste peregrinação pelas paradas cidades do interior naqueles meses de inverno, quando as chuvas são longas e o Natal está muito distante ainda. […] O pano tinha muitos buracos também, além de um rasgão enorme que fazia o carrossel depender da chuva. Já fora belo, fora mesmo o orgulho da meninada de Maceió noutros tempos. Ficava então ao lado de uma roda gigante e de uma sombrinha, sempre na mesma praça, e nos domingos e feriados as crianças ricas, vestidas de marinheiro ou de pequeno lorde inglês, as meninas de holandesa ou de finos vestidos de seda, vinham se aboletar nos cavalos preferidos, indo os menores nos bancos com as aias […]. Era como num sonho, sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites angustiosas. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se húmidos de lágrimas que não eram causadas pela dor ou pela raiva. E seus olhos húmidos miravam Nhozinho França como a um ídolo. Pedro sorria, um sorriso de dentes apertados, era igual a um animal feroz caçando no deserto um outro animal para seu almoço. Quando já ia levando a mão para tocarem seu ombro e fazer com que ela voltasse o rosto, a negrinha começou a correr. Pedro Bala se lançou em sua perseguição e logo a alcançou. Mas ia a tal velocidade esbarrou nela e ambos rolaram na areia. Pedro se levantou de um rindo, chegou para o lado dela, que procurava se pôr em pé: -- Não precisa, lindeza. Assim mesmo tá bom […].Ela, antes de desaparecer na esquina, cuspiu no chão num supremo desprezo e ainda repetiu: -- Desgraçado... Desgraçado. Primeiro ele ficou parado, depois deitou a correr no areal ia como se os ventos o açoitassem, como se fugisse das pragas da negrinha. E tinha vontade de se jogar no mar para se lavar de toda aquela inquietação, a vontade de se vingar dos homens que tinham matado seu pai, o ódio que sentia contra a cidade rica que se estendia do outro lado do mar, na Barra, na Vitória, na Graça, o desespero da sua vida de criança abandonada e perseguida, a pena que sentia pela pobre negrinha, uma criança também. Uma criança também - ouvia na voz do vento, no samba que cantavam, uma voz dizia dentro dele.

Aventura de Ogum
Outra noite, uma noite de inverno, na qual os saveiros não se aventuraram no mar, noite da cólera de Yemanjá e Xangô, quando os relâmpagos eram o único brilho no céu carregado de nuvens negras e pesadas, Pedro Bala, o Sem-Pernas e João Grande foram levar a mãe-de-Santo, Don'Aninha, até sua casa distante. Ela viera ao trapiche pela tarde, precisava de um favor deles, e enquanto explicava, a noite caiu espantosa e terrível. - Ogum está zangado... - explicou a mãe-de-Santo Don'Aninha. […] As imprecações da mãe-de-santo enchiam a noite mais que o ruído dos agogôs e atabaques que desagravavam Ogum. Don'Aninha era magra e alta, um tipo aristocrático de negra, e sabia levar como nenhuma das negras da cidade suas roupas de baiana.
O jogo recomeçou. Chuva e raios, trovões e nuvens no céu. O frio intenso no trapiche. Gotas de água caíam sobre os meninos que jogavam. Mas o jogo agora era sem atenção, o próprio Gato se esquecia de ganhar, havia como que uma confusão em todo o trapiche. Durou até que Professor disse: - Eu vou ver as coisas... João Grande e o Gato foram com ele. Nesta noite foi Pirulito que se deitou na porta do trapiche com o punhal sob a cabeça […].
Pirulito avança. Vê o inferno, o castigo de Deus, suas mãos e cabeça a arder uma vida que nunca acaba. Mas sacode o corpo como que jogando longe a visão, recebe o Menino que a Virgem lhe entrega, o encosta ao peito e desaparece na rua. Não olha o Menino. Mas sente que agora, encostado ao seu peito, o Menino sorri, não tem mais fome nem sede nem frio. Sorri o Menino como sorria o negrinho de poucos meses quando se encontrou no trapiche e viu que João Grande lhe dava leite às colheradas com suas mãos enormes, enquanto o Professor o sustinha encostado ao calor do seu peito. Assim sorri o Menino.

Filha de Bexiguento
A música já recomeçara no morro. Os malandros voltavam a tocar violão, a cantar modinhas, a inventar sambas que depois vendiam aos sambistas célebres da cidade. Os homens passavam de cabeça baixa para as suas casas ou para o trabalho. E os caixões negros de adultos, os caixões brancos de virgens, os pequenos caixões de crianças desciam as ásperas ladeiras do morro para o cemitério distante. Isso quando não eram sacos que desciam com os variolosos ainda vivos que eram levados para o lazareto […]. Mas Dora tinha treze para quatorze anos, os seios já haviam começado a surgir sob o vestido, parecia uma mulherzinha, muito séria, a buscar os remédios para a mãe, a tratar dela. Margarida melhorou quando já os violões recomeçavam a tocar no morro, porque a epidemia de varíola tinha se acabado. […] Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olhe porque pensava que isto era namorar. E seu coração batia rápido quando olhava. Não sabia que isso era amor. Por fim a lua veio estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e mesmo de olhos fechados via Dora. Sentiu quando ela chegou e deitou a seu lado. Disse: -- Tu agora é minha noiva. Um dia a gente se casa. Continuou de olhos fechados. Ela disse baixinho: -- Tu é meu noivo. Mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom. […]

Reformatório
O jornal da tarde trouxe a notícia em grandes títulos. Uma manchete ia de lado a lado na primeira página: preso o chefe dos "Capitães da Areia" […]
Por várias vezes também noticiamos os assaltos levados a efeito por este esmo grupo. Realmente a cidade vivia sob o temor constante destes meninos, que ninguém sabia onde moravam, cujo chefe ninguém conhecia. Há alguns meses tivemos ocasião de publicar cartas do dr. Chefe de Polícia, do dr. Juiz de Menores e do Director do Reformatório Baiano sobre este problema. Todos eles prometiam incentivar a campanha contra os menores delinquentes e em particular contra os "Capitães da Areia". […] Pondo em prática uma agilidade incomum Pedro Bala se livrou dos braços do investigador que o segurava e com um golpe de capoeira o derrubou. No entanto não fugiu. É claro que os demais guardas e investigadores se precipitaram em cima dele para impedir a sua fuga. Só então foi possível compreender o plano do chefe dos "Capitães da Areia" pois este gritou para os companheiros presos. -- Arriba, pessoal. Um único guarda ficara a tomar conta dos outros, e um deles, muito ágil, o derrubou também com um golpe de capoeira. E desabaram para a ladeira da Montanha.
Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora. Nascera no morro, infância em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a vida aventurosa dos Capitães da Areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade. Fizeram duas tranças do seu cabelo, amarraram com fitas. Fitas cor-de-rosa. Deram-lhe um vestido de pano azul, um avental de um azul mais escuro. Faziam com que ela ouvisse aulas junto com meninas de cinco e seis anos. A comida era má, havia castigo também.
[…] Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela policia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida. No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.

1. Biografia do autor
Jorge Amado nasceu a 10 de Agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.
Com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a infância.  Fez os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador. Neste período, começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes.
Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931. Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.
Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935. Militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América Latina. Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.
Em 1945, foi eleito membro da Assembléia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso. Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai.
Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Jorge Amado teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950, quando foi expulso. Em 1949, morreu no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950 e 1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.
De volta ao Brasil, Jorge Amado afastou-se, em 1955, da militância política, sem, no entanto, deixar os quadros do Partido Comunista. Dedicou-se, a partir de então, inteiramente à literatura. Foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis.
A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.
Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de Agosto de 2001. Foi cremado conforme seu desejo, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.
A obra de Jorge Amado mereceu diversos prémios nacionais e internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética, 1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária, 1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti (Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959, 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).
Recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina; além de ter sido feito Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na França, em Portugal e em Israel. O título de Doutor pela Sorbonne, na França, foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris, quando já estava doente.
Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.


Contexto histórico, social e cultural
Vivia o Brasil um momento conturbado, em que se tomava consciência da chamada luta de classes, durante a ascensão ao poder de Getúlio Vargas; João Luiz Lafetá afirma que “A consciência da luta de classes, embora de forma confusa, penetra em todos os lugares - na literatura inclusive, e com uma profundidade que vai causar transformações importantes”. Buscava-se, então, a mudança social, ao contrário do momento literário anterior em que se enaltecia as qualidades do país, presente no movimento modernista; há um certo desencanto com a realidade, que a literatura passa a retratar de modo pessimista, mas fazendo-o de forma activa, transformadora.
Localização da história
  • No tempo: a obra apresenta tempo cronológico demarcado pelos dias, meses, anos e horas conforme exemplificam os fragmentos: "É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia, Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus 5 anos. Hoje tem 15 anos. Há dez anos que vagabundeia nas ruas da Bahia."
  • No espaço – a narrativa se desenrola no Trapiche (hoje Solar do Unhão e o Museu de Arte Moderna); no Terreiro de Jesus (na época era lugar de destaque comercial de Salvador); onde os meninos circulavam na esperança de conseguirem dinheiro e comida devido ao trânsito de pessoas que trabalhavam lá e passavam por lá; no Corredor da Vitória área nobre de Salvador, local visado pelo pelo grupo porque lá habitavam as pessoas da alta sociedade baiana, como o comendador mencionado no início da narrativa.
 As personagens da história são:
  • Pedro Bala: líder dos Capitães da Areia, tem o cabelo loiro e uma cicatriz de navalha no rosto, fruto da luta em que venceu o antigo comandante do bando. Seu pai, conhecido como Loiro, era estivador e liderara uma greve no porto, onde foi assassinado por policiais.
  • Sem-pernas: deficiente físico, possui uma perna coxa.
  • Gato: é o galã dos Capitães da Areia. Bem-vestido, domina a arte da jogatina, trapaceando, com seu baralho marcado, todos os que se aventuram numa partida contra ele. Além dos furtos e do jogo, Gato consegue dinheiro como cafetão de uma prostituta chamada Dalva.
  • Professor: intelectual do grupo, deu início às leituras depois de um assalto em que roubara alguns livros. Além de entreter os garotos, narrando as aventuras que lê, o Professor ajuda decisivamente Pedro Bala, aconselhando- o no planejamento dos assaltos.
  • Pirulito: era o mais cruel do bando, até que, tocado pelos ensinamentos do padre José Pedro, converte-se à religião. Executa, com os demais, os roubos necessários à sobrevivência, sem jamais deixar de praticar a oração e sua fé em Deus.
  • Boa-vida: o apelido traduz seu carácter indolente e sossegado. Contenta-se com pequenos furtos, o suficiente para contribuir para o bem-estar do grupo, e com algumas mulheres que não interessam mais ao Gato.
  • João Grande: é respeitado pelo grupo em virtude de sua coragem e da grande estatura. Ajuda e protege os novatos do bando contra atos tiranos praticados pelos mais velhos.
  • Volta Seca: admirador do cangaceiro Lampião, a quem chama de padrinho, sonha um dia participar de seu bando.
  • Dora: seus pais morreram, vítimas da varíola, quando tinha apenas 13 anos. É encontrada com seu irmão mais novo, Zé Fuinha, pelo Professor e por João Grande. Ao chegar ao trapiche abandonado, onde os garotos dormem, Dora quase é violentada, mas, tendo sido protegida por João Grande, o grupo a aceita, primeiro como a mãe de que todos careciam, depois como a valente mulher de Pedro Bala.
  • Padre José Pedro: padre de origem humilde, só conseguiu entrar para o seminário por ter sido apadrinhado pelo dono do estabelecimento onde era operário. Discriminado por não possuir a cultura nem a erudição dos colegas, demonstra uma crença religiosa sincera. Por isso, assume a missão de levar conforto espiritual às crianças abandonadas da cidade, das quais os Capitães da Areia são o grande expoente.
  • Querido-de-Deus: grande capoeirista da Bahia, respeita o grupo liderado por Pedro Bala e é respeitado por ele. Ensina sua arte para alguns deles e exerce grande influência sobre os garotos.

 Análise ou comentário
Este livro retrata a história de um grupo de crianças órfãs, que vivia nas ruas da cidade da Bahia. Eram um grupo de meninos, conhecidos por todos como os capitães da areia viviam num trapiche abandonado, perto da praia e ocupavam os seus dias a tentar arranjar o que comer ou o que vestir, tendo muitas vezes que roubar para o conseguir. A maioria dos habitantes da cidade rejeitava-os e desprezava-os, devido à sua fama de ladrões e rapazes conflituosos. Contudo e apesar de por vezes terem determinadas atitudes, estes rapazes eram simples crianças, meninos, que por circunstâncias da vida foram obrigados a viver sozinhos, a saber que só poderiam contar com eles próprios para sobreviver. Muitas vezes as suas atitudes eram justificadas pela carência de amor e afecto que tinham, uns porque tinham sido abandonados pelas mães, outros porque nunca as tinham conhecido. No entanto, nenhum deles desejava ir para um orfanato, pois sabiam o valor da palavra liberdade, e não a trocavam por nada.

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