Resumo da Obra "Capitães de Areia" de Jorge Amado
Resumo da
obra "CAPITÃES DE AREIA" de Jorge Amado
Crianças ladronas
As aventuras sinistras dos "Capitães da Areia" -
A cidade infestada por crianças que vivem do furto - urge uma providência do
Juiz de Menores e do chefe de polícia - ontem houve mais um assalto […]. Essas
crianças que tão cedo se dedicaram à tenebrosa carreira do crime não têm
moradia certa ou pelo menos a sua moradia ainda não foi localizada. Como também
ainda não foi localizado o local onde escondem o produto dos seus assaltos, que
se tornam diários, fazendo Jus a unia Imediata providência do Juiz de Menores e
do dr. Chefe de Polícia. […] São chamados de "Capitães da Areia"
porque o cais é o seu quartel-general. E têm por comandante um mascote dos seus
14 anos, que é o mais terrível de todos, não só ladrão, como já autor de um
crime de ferimentos graves, praticado na tarde de ontem. Infelizmente a
Identidade deste chefe é desconhecida.
Na residência do
comendador José Ferreira
No Corredor da Vitória, coração do mais chique bairro da
cidade, se eleva a bela vivenda do Comendador José Ferreira, dos mais abastados
e acreditados negociantes desta praga, com loja de fazendas na rua Portugal. É
um gosto ver o palacete do comendador, cercado de jardins, na sua arquitectura
colonial. Pois ontem esse remanso de paz e trabalho honesto passou uma hora de
indescritível agitação e susto com a invasão que sofreu por parte dos
"Capitães da Areia".
Os relógios badalavam as três horas da tarde e a cidade
abafava de calor quando o jardineiro notou que algumas crianças vestidas de
molambos rondavam o jardim da residência do comendador. O jardineiro tratou de
afastar da frente da casa aqueles incómodos visitantes […]. A polícia tomou conhecimento do fato, mas até o momento que escrevemos a
presente nota nenhum rastro dos "Capitães da Areia" foi encontrado.
Os moradores do aristocrático bairro estão alarmados e
receosos de que os assaltos se sucedam, pois este não é o primeiro levado a
efeito pelos "Capitães da Areia". Urge uma providência que traga para
semelhantes malandros um justo castigo e o sossego para as nossas mais distintas
famílias […]. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas
ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava
por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por
uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados,
alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das
travessias marítimas. […] Na primeira noite não dormiu, ocupado em despedaçar
ratos que passavam na sua frente. Dormiu depois de algumas noites, ladrando à
lua pela madrugada, pois grande parte do teto já ruíra e os raios da lua
penetravam livremente, iluminando o assoalho de tábuas grossas […].E os ratos
voltaram a dominas até que os Capitães da Areia lançaram as suas vistas para o
casarão abandonado […]. É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia
Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem 15
anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia […]. Vestidos de farrapos,
sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de
cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam, os seus poetas.
Noite dos
capitães da areia
A grande noite de Paz da Bahia veio do Cais, envolveu os
saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das
igrejas. Os sinos já não tocam as ave-marias que as seis horas há muito que
passaram. E o céu está cheio de estrelas, se bem a lua não tenha surgido nesta
noite clara. O trapiche se destaca na brancura do areal, que conserva as marcas
dos passos dos Capitães da Areia, que já se recolheram.
[…] João José, o Professor, desde o dia em que furtara um
livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tomara perito nestes
furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do
trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa
ânsia que era quase febre. […] Apelidaram-no de Professor porque num livro
furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços níqueis e também porque,
contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e
misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia com que os
olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as estrelas da
noite da Bahia […]
Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de
gritos. João Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrídula e fanhosa. O
Sem-Pernas falava alto, ria muito. Era o espião do grupo, aquele que sabia se
meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos
pais na imensidão agressiva da cidade.
Ponto das
Pitangueiras
Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o céu,
mirando a rua deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o último dos bondes da
linha de Brotas naquela noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que
fazia, gastou três fósforos. Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um
frio húmido que o vento trazia das chácaras onde balouçavam mangueiras e
sapotizeiros. Os três meninos esperavam que o guarda andasse para poder
atravessar de um lado para o outro da rua e entrar na travessa sem calçamento
[…]. O Querido-de-Deus afirmava o homem viria, o camarada que lhe dera a
informação era um sujeito seguro. Era negócio para render muito e o
Querido-de-Deus preferia chamar os Capitães da Areia, seus amigos, a um dos
malandros do cais […].
As luzes do
carrossel
O Grande Japonês não era senão um pequeno carrossel
nacional, que vinha de uma triste peregrinação pelas paradas cidades do
interior naqueles meses de inverno, quando as chuvas são longas e o Natal está
muito distante ainda. […] O pano tinha muitos buracos também, além de um rasgão
enorme que fazia o carrossel depender da chuva. Já fora belo, fora mesmo o
orgulho da meninada de Maceió noutros tempos. Ficava então ao lado de uma roda gigante
e de uma sombrinha, sempre na mesma praça, e nos domingos e feriados as
crianças ricas, vestidas de marinheiro ou de pequeno lorde inglês, as meninas
de holandesa ou de finos vestidos de seda, vinham se aboletar nos cavalos
preferidos, indo os menores nos bancos com as aias […]. Era como num sonho,
sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites
angustiosas. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se húmidos de lágrimas que
não eram causadas pela dor ou pela raiva. E seus olhos húmidos miravam Nhozinho
França como a um ídolo. Pedro sorria, um sorriso de dentes apertados, era igual
a um animal feroz caçando no deserto um outro animal para seu almoço. Quando já
ia levando a mão para tocarem seu ombro e fazer com que ela voltasse o rosto, a
negrinha começou a correr. Pedro Bala se lançou em sua perseguição e logo a
alcançou. Mas ia a tal velocidade esbarrou nela e ambos rolaram na areia. Pedro
se levantou de um rindo, chegou para o lado dela, que procurava se pôr em pé:
-- Não precisa, lindeza. Assim mesmo tá bom […].Ela, antes de desaparecer na
esquina, cuspiu no chão num supremo desprezo e ainda repetiu: -- Desgraçado...
Desgraçado. Primeiro ele ficou parado, depois deitou a correr no areal ia como
se os ventos o açoitassem, como se fugisse das pragas da negrinha. E tinha
vontade de se jogar no mar para se lavar de toda aquela inquietação, a vontade
de se vingar dos homens que tinham matado seu pai, o ódio que sentia contra a
cidade rica que se estendia do outro lado do mar, na Barra, na Vitória, na
Graça, o desespero da sua vida de criança abandonada e perseguida, a pena que
sentia pela pobre negrinha, uma criança também. Uma criança também - ouvia na
voz do vento, no samba que cantavam, uma voz dizia dentro dele.
Aventura de Ogum
Outra noite, uma noite de inverno, na qual os saveiros não
se aventuraram no mar, noite da cólera de Yemanjá e Xangô, quando os relâmpagos
eram o único brilho no céu carregado de nuvens negras e pesadas, Pedro Bala, o
Sem-Pernas e João Grande foram levar a mãe-de-Santo, Don'Aninha, até sua casa
distante. Ela viera ao trapiche pela tarde, precisava de um favor deles, e
enquanto explicava, a noite caiu espantosa e terrível. - Ogum está zangado... -
explicou a mãe-de-Santo Don'Aninha. […] As imprecações da mãe-de-santo enchiam
a noite mais que o ruído dos agogôs e atabaques que desagravavam Ogum.
Don'Aninha era magra e alta, um tipo aristocrático de negra, e sabia levar como
nenhuma das negras da cidade suas roupas de baiana.
O jogo recomeçou. Chuva e raios, trovões e nuvens no céu. O
frio intenso no trapiche. Gotas de água caíam sobre os meninos que jogavam. Mas
o jogo agora era sem atenção, o próprio Gato se esquecia de ganhar, havia como
que uma confusão em todo o trapiche. Durou até que Professor disse: - Eu vou
ver as coisas... João Grande e o Gato foram com ele. Nesta noite foi Pirulito
que se deitou na porta do trapiche com o punhal sob a cabeça […].
Pirulito avança. Vê o inferno, o castigo de Deus, suas mãos
e cabeça a arder uma vida que nunca acaba. Mas sacode o corpo como que jogando
longe a visão, recebe o Menino que a Virgem lhe entrega, o encosta ao peito e
desaparece na rua. Não olha o Menino. Mas sente que agora, encostado ao seu
peito, o Menino sorri, não tem mais fome nem sede nem frio. Sorri o Menino como
sorria o negrinho de poucos meses quando se encontrou no trapiche e viu que
João Grande lhe dava leite às colheradas com suas mãos enormes, enquanto o
Professor o sustinha encostado ao calor do seu peito. Assim sorri o Menino.
Filha de
Bexiguento
A música já recomeçara no morro. Os malandros voltavam a
tocar violão, a cantar modinhas, a inventar sambas que depois vendiam aos
sambistas célebres da cidade. Os homens passavam de cabeça baixa para as suas
casas ou para o trabalho. E os caixões negros de adultos, os caixões brancos de
virgens, os pequenos caixões de crianças desciam as ásperas ladeiras do morro
para o cemitério distante. Isso quando não eram sacos que desciam com os
variolosos ainda vivos que eram levados para o lazareto […]. Mas Dora tinha
treze para quatorze anos, os seios já haviam começado a surgir sob o vestido,
parecia uma mulherzinha, muito séria, a buscar os remédios para a mãe, a tratar
dela. Margarida melhorou quando já os violões recomeçavam a tocar no morro,
porque a epidemia de varíola tinha se acabado. […] Ela sorria e baixava os
olhos, por vezes piscava com um olhe porque pensava que isto era namorar. E seu
coração batia rápido quando olhava. Não sabia que isso era amor. Por fim a lua
veio estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e
mesmo de olhos fechados via Dora. Sentiu quando ela chegou e deitou a seu lado.
Disse: -- Tu agora é minha noiva. Um dia a gente se casa. Continuou de olhos fechados.
Ela disse baixinho: -- Tu é meu noivo. Mesmo não sabendo que era amor, sentiam
que era bom. […]
Reformatório
O jornal da tarde trouxe a notícia em grandes títulos. Uma
manchete ia de lado a lado na primeira página: preso o chefe dos "Capitães
da Areia" […]
Por várias vezes também noticiamos os assaltos levados a
efeito por este esmo grupo. Realmente a cidade vivia sob o temor constante
destes meninos, que ninguém sabia onde moravam, cujo chefe ninguém conhecia. Há
alguns meses tivemos ocasião de publicar cartas do dr. Chefe de Polícia, do dr.
Juiz de Menores e do Director do Reformatório Baiano sobre este problema. Todos
eles prometiam incentivar a campanha contra os menores delinquentes e em
particular contra os "Capitães da Areia". […] Pondo em prática uma
agilidade incomum Pedro Bala se livrou dos braços do investigador que o
segurava e com um golpe de capoeira o derrubou. No entanto não fugiu. É claro
que os demais guardas e investigadores se precipitaram em cima dele para
impedir a sua fuga. Só então foi possível compreender o plano do chefe dos
"Capitães da Areia" pois este gritou para os companheiros presos. --
Arriba, pessoal. Um único guarda ficara a tomar conta dos outros, e um deles,
muito ágil, o derrubou também com um golpe de capoeira. E desabaram para a
ladeira da Montanha.
Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de
Dora. Nascera no morro, infância em correrias no morro. Depois a liberdade das
ruas da cidade, a vida aventurosa dos Capitães da Areia. Não era uma flor de estufa.
Amava o sol, a rua, a liberdade. Fizeram duas tranças do seu cabelo, amarraram
com fitas. Fitas cor-de-rosa. Deram-lhe um vestido de pano azul, um avental de
um azul mais escuro. Faziam com que ela ouvisse aulas junto com meninas de
cinco e seis anos. A comida era má, havia castigo também.
[…] Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos
quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias
clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e
que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante
proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela policia de cinco
estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como
perigoso inimigo da ordem estabelecida. No ano em que todas as bocas foram
impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais
(únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder
da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora
pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que
fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro
Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.
1. Biografia do
autor
Jorge Amado nasceu a 10 de Agosto de 1912, na fazenda
Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da
Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal
Amado.
Com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a
infância. Fez os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira e no
Ginásio Ipiranga, em Salvador. Neste período, começou a trabalhar em jornais e
a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos
Rebeldes.
Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931.
Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse
ano publicou seu segundo romance, Cacau.
Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de
Janeiro, em 1935. Militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e
no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América
Latina. Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.
Em 1945, foi eleito membro da Assembléia Nacional
Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o
deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge Amado foi o autor da
lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso.
Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai.
Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do
casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Jorge
Amado teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950, quando
foi expulso. Em 1949, morreu no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950 e
1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.
De volta ao Brasil, Jorge Amado afastou-se, em 1955, da
militância política, sem, no entanto, deixar os quadros do Partido Comunista.
Dedicou-se, a partir de então, inteiramente à literatura. Foi eleito, em 6 de
abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras,
que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis.
A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras
adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de
samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas,
existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.
Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de Agosto de 2001.
Foi cremado conforme seu desejo, e suas cinzas foram enterradas no jardim de
sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.
A obra de Jorge Amado mereceu diversos prémios nacionais e
internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética,
1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária,
1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino
Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti
(Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959,
1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).
Recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens
da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina; além de ter sido
feito Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na
França, em Portugal e em Israel. O título de Doutor pela Sorbonne, na França,
foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris,
quando já estava doente.
Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que
exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.
Contexto
histórico, social e cultural
Vivia o
Brasil um momento conturbado, em que se tomava consciência da chamada luta de
classes, durante a ascensão ao poder de Getúlio Vargas; João Luiz Lafetá afirma
que “A consciência da luta de classes, embora de forma confusa, penetra em
todos os lugares - na literatura inclusive, e com uma profundidade que vai
causar transformações importantes”. Buscava-se, então, a mudança social, ao
contrário do momento literário anterior em que se enaltecia as qualidades do
país, presente no movimento modernista; há um certo desencanto com a
realidade, que a literatura passa a retratar de modo pessimista, mas fazendo-o
de forma activa, transformadora.
Localização da história
- No tempo: a obra apresenta tempo cronológico demarcado pelos dias, meses, anos e horas conforme exemplificam os fragmentos: "É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia, Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus 5 anos. Hoje tem 15 anos. Há dez anos que vagabundeia nas ruas da Bahia."
- No espaço – a narrativa se desenrola no Trapiche (hoje Solar do Unhão e o Museu de Arte Moderna); no Terreiro de Jesus (na época era lugar de destaque comercial de Salvador); onde os meninos circulavam na esperança de conseguirem dinheiro e comida devido ao trânsito de pessoas que trabalhavam lá e passavam por lá; no Corredor da Vitória área nobre de Salvador, local visado pelo pelo grupo porque lá habitavam as pessoas da alta sociedade baiana, como o comendador mencionado no início da narrativa.
As personagens da história são:
- Pedro Bala: líder dos Capitães da Areia, tem o cabelo loiro e uma cicatriz de navalha no rosto, fruto da luta em que venceu o antigo comandante do bando. Seu pai, conhecido como Loiro, era estivador e liderara uma greve no porto, onde foi assassinado por policiais.
- Sem-pernas: deficiente físico, possui uma perna coxa.
- Gato: é o galã dos Capitães da Areia. Bem-vestido, domina a arte da jogatina, trapaceando, com seu baralho marcado, todos os que se aventuram numa partida contra ele. Além dos furtos e do jogo, Gato consegue dinheiro como cafetão de uma prostituta chamada Dalva.
- Professor: intelectual do grupo, deu início às leituras depois de um assalto em que roubara alguns livros. Além de entreter os garotos, narrando as aventuras que lê, o Professor ajuda decisivamente Pedro Bala, aconselhando- o no planejamento dos assaltos.
- Pirulito: era o mais cruel do bando, até que, tocado pelos ensinamentos do padre José Pedro, converte-se à religião. Executa, com os demais, os roubos necessários à sobrevivência, sem jamais deixar de praticar a oração e sua fé em Deus.
- Boa-vida: o apelido traduz seu carácter indolente e sossegado. Contenta-se com pequenos furtos, o suficiente para contribuir para o bem-estar do grupo, e com algumas mulheres que não interessam mais ao Gato.
- João Grande: é respeitado pelo grupo em virtude de sua coragem e da grande estatura. Ajuda e protege os novatos do bando contra atos tiranos praticados pelos mais velhos.
- Volta Seca: admirador do cangaceiro Lampião, a quem chama de padrinho, sonha um dia participar de seu bando.
- Dora: seus pais morreram, vítimas da varíola, quando tinha apenas 13 anos. É encontrada com seu irmão mais novo, Zé Fuinha, pelo Professor e por João Grande. Ao chegar ao trapiche abandonado, onde os garotos dormem, Dora quase é violentada, mas, tendo sido protegida por João Grande, o grupo a aceita, primeiro como a mãe de que todos careciam, depois como a valente mulher de Pedro Bala.
- Padre José Pedro: padre de origem humilde, só conseguiu entrar para o seminário por ter sido apadrinhado pelo dono do estabelecimento onde era operário. Discriminado por não possuir a cultura nem a erudição dos colegas, demonstra uma crença religiosa sincera. Por isso, assume a missão de levar conforto espiritual às crianças abandonadas da cidade, das quais os Capitães da Areia são o grande expoente.
- Querido-de-Deus: grande capoeirista da Bahia, respeita o grupo liderado por Pedro Bala e é respeitado por ele. Ensina sua arte para alguns deles e exerce grande influência sobre os garotos.
Análise ou comentário
Este livro
retrata a história de um grupo de crianças órfãs, que vivia nas ruas da cidade
da Bahia. Eram um grupo de meninos, conhecidos por todos como os capitães da
areia viviam num trapiche abandonado, perto da praia e ocupavam os seus dias a
tentar arranjar o que comer ou o que vestir, tendo muitas vezes que roubar para
o conseguir. A maioria dos habitantes da cidade rejeitava-os e desprezava-os,
devido à sua fama de ladrões e rapazes conflituosos. Contudo e apesar de por
vezes terem determinadas atitudes, estes rapazes eram simples crianças,
meninos, que por circunstâncias da vida foram obrigados a viver sozinhos, a
saber que só poderiam contar com eles próprios para sobreviver. Muitas vezes as
suas atitudes eram justificadas pela carência de amor e afecto que tinham, uns
porque tinham sido abandonados pelas mães, outros porque nunca as tinham
conhecido. No entanto, nenhum deles desejava ir para um orfanato, pois sabiam o
valor da palavra liberdade, e não a trocavam por nada.
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