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Resumo da Obra "Ninguém Matou Suhura" de Lilia Momplé: por Alberto Traquinho



1. Biografia da autora

Lília Maria Clara Carrière Momplé nasceu em 19 de Março de 1935, na mítica Ilha de Moçambique, localizada ao norte do país, na província de Nampula. Concluiu seus estudos secundários na capital da colónia, na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo). Na universidade, frequentou durante dois anos o curso de Filologia Germânica, deixando-o para formar-se em Serviço Social no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Depois de uma temporada na Grã-Bretanha (durante 1964) e de outra no Brasil (de 1968 a 1971), a escritora regressa definitivamente a Moçambique no ano de 1972.
Encerrados os seus estudos em Lisboa, Lília Momplé trabalhou como funcionária da Secretaria de Estado da Cultura como directora do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural de Moçambique (FUNDAC) e como secretária-geral da Associação de Escritores de Moçambique (AEMO), durante o período de 1995 a 2001. De 1997 a 2001, acumulou, juntamente com a função de secretária-geral da AEMO, a função de presidente da Instituição. Durante o período em que esteve na Presidência da Associação, não mediu esforços para aumentar a visibilidade das mulheres nas publicações da Instituição. Foi também representante do Conselho Executivo da Unesco, no período compreendido entre 2001 e 2005.
Apesar de suas colaborações dispersas na imprensa, Lília Momplé destaca-se no cenário da literatura moçambicana por seus três livros: Ninguém matou Suhura (contos, 1988), Neighbours (romance, 1996) e Os olhos da cobra verde (contos, 1997). Em 2001, foi agraciada com o Prêmio Caine para Escritores de África, com o conto “O baile de Celina”. Além desse prémio, recebeu também o 1º Prêmio de Novelística no Concurso Literário do Centenário da Cidade de Maputo, com o conto “Caniço”. Esses dois contos foram originalmente publicados em seu primeiro livro, Ninguém matou Suhura. Lília Momplé tem livros traduzidos para o inglês e o alemão por editoras de reconhecido prestígio, tal como a Heinman.

13. Resumo da obra

Aconteceu em Saua-Saua

Mussa Racua aproxima-se lentamente da palhota de Abudo. Todo o cansaço de um dia inteiro de caminhadas infrutíferas se concentra no olhar, cuja melancolia serenidade reflecte uma tristeza sem esperança. […]
Abudo á a sua última esperança. Contudo, uma esperança tão remota e fugidia que, longe de o animar, o enche de pavor. Não recua só para justificar a si próprio que lutou até ao fim.
[...]. Dão-se as mãos à maneira dos macuas do litoral, apertando-as duas vezes, obliquamente. […]. Abudo já deve saber o que o amigo procura. As palhotas de Saua-Saua são dispersas, mas, por qualquer estranha razão, as notícias de morte e de desgraça propagam-se rapidamente, como que levadas pela inquieta aragem que acaricia as folhas das mangueiras.
[…] – Mas tu já viste, irmão, que vida é a nossa? – interrompe Mussa Racua – vem essa gente da Administração e marca-te um terreno. Dão-te sementes que não pediste e dizem: tens que tirar daqui três ou seis ou sete sacos, conforme lhes dá na cabeça. E se por qualquer razão adoecemos ou não cai chuva ou a semente é ruim, e não conseguimos entregar o arroz que eles querem, lá vamos nós parar às plantações. E os donos das plantações ficam contentes porque conseguem uma data de homens para trabalhar de graça. E a gente da Administração fica contente porque recebe dos donos das plantações um tanto por cabeça que entrega. E nós é que vamos rebentando de medo e de trabalho todos os anos. E mal podemos cuidar das nossas machambas que nem dão para comer.
[…]. A plantação é terror de todos os negros, mesmo daqueles que nunca lá estiveram. Abudo tem sido um bom amigo. Muitas vezes o salvara da plantação emprestando-lhe todo o arroz que lhe sobrava, depois de entregar o exigido pela Administração. […]
E de repente, a solução há tanto tempo procurada surge-lhe tão simples, tão natural, tão evidente, que se admira de a não ter encontrado muito antes.
Na escuridão enluarada do pequeno quarto sente a mulher a dormir um sono agitado […].
Maissa só acorda com a primeira claridade da amanhã e, num instante põe-se fora da quitanda. […]. Apesar do alegre coro da passarada que canta nos ninhos pendentes das árvores, o silêncio da palhota oprime-lhe o coração. Onde estará o marido? Porque não o ouve ela esta manhã? […]
O ventre pesa-lhe, mas ela começa a correr como se quisesse chegar a tempo de impedir uma desgraça. Sempre a correr resolve ir  a estrada principal. Mas, pouco a pouco, o pressentimento que lhe oprime o peito vai-se tornando uma certeza. Já não corre nem grita […] . E é quase sem surpresa que, ao dobrar um carreiro, dá cm o corpo de Mussa Racua suspenso de uma mangueira, balouçando docemente ao sabor da brisa matinal. Tomado no chão, um saco cheio de arroz
Horas depois, um camponês seco e esfarrapado é introduzido quase à força no gabinete do administrador. […]. È, pois, com verdadeiro alívio que recebe ordem para se retirar e apressa-se a sair às arrecuas, arrastando as pernas magras e trémulas.
Sem o ver, o administrador segue-o com os olhos até à posta. Depois, voltando-se para o Língua, mas falando mais para si próprio, desabafa com uma raiva impaciente: - Estes cães assim que lhes cheira trabalho, arranjam sempre chatices. Ou fogem ou suicidam-se. Maldita raça!

O caniço

Como sempre, Naftal desperta sem vontade. O quarto onde dorme cheira a suor e a mofo, pois é um compartimento demasiado pequeno para albergar quatro pessoas. […]. O pai trabalhou vários anos nas minas do John e de vez em quando vinha visitar a família. […]. Efectivamente, pouco tempo depois de o pai ter partido, receberam a notícia da sua morte. As minas tinham-lhe comido as forças e a carne, como a tantos outros negros parte de Moçambique perseguindo sonhos de riqueza. […]
Entretanto a carreira de Aidinha como prostituta foi fulgurante e breve. Apesar da fakta de experiencia, ou talvez por isso mesmo, ela agradava aos homens que procuravam a casa da Aurora Caldeira […]. Aí, os frequentadores dos cabarés disputavam-na, chegando alguns sul-africanos brancos a evolverem-se à pancada por sua causa. Ela, por sua vez, sugava-lhes o dinheiro, e deleitava-se a vê-los esmurrarem-se por causa de uma negra. […]. Só quando passou a escarrar sangue se convenceu que estava realmente doente. E então, já nem teve forças para impedir que as companheiras a levassem para o hospital.
[…]. E assim Aidinha regressou à palhota, onde se encontra há cerca de um mês. Passa os dias deitada, impregnando o quarto do forte cheiro a bolacha característico dos tuberculosos e morrendo um pouco em cada dia.
Naftal aceita a doença e a morte próxima da irmã como aceitou a morte do pai nas minas do John, a miséria quotidiana, o medo e as humilhações. Para ele, tudo faz parte do destino dos negros. Por isso, como sempre, hoje também desperta sem vontade, pois nada espera do dia que começa. […]
[…]. Ao ouvi-lo, um dos irmãozinhos corre a estender-lhe a esteira. Naftal deita-se logo, de costas, com as palmas das mãos voltadas para cima, sentindo a dor que nasce na porta dos dedos irradiando por todo o corpo, como um arrepio de febre. […]. Contudo, quando o sol começa a penetrar pelas frestas das paredes de caniço, Naftal acorda, embora, como sempre, desperte sem vontade.
Estendidos na esteira, os irmãos ainda dormem, respirando suavemente de boca aberta. No quarto ao lado, Aidinha tosse. De uma palhota próxima chega o choro precocemente tímido de uma criança […].

O baile da Celina

- É lindo! - Suspira Leonor, contemplando o vestido. D. Violante não responde, mas o rosto resplandece-lhe de orgulho ao pendurar a obra-prima que lhe sai das mãos. Acaba de dar os últimos pontos no vestido de organza branca que sua filha Celina levará ao baile dos finalistas do Liceu Salazar. […]. Dr. Bordalo Monteiro (pai de Maria Claudina), Benjamim Castelo, Muaziza.
Maria Claudina tinha dezoito anos quando catarino da Silva a pediu em casamento. E para a surpresa de todos, e um pouco dele próprio, foi aceite. A rapariga seguiu certamente os conselhos da mãe que, depois do que sofrera com a família nobre do marido considerava uma verdadeira bênção o casamento da filha com um homem simultaneamente plebeu e riquíssimo. A boda realizou-se com grande pompa. […].
Um dia, ao chegar a casa para almoçar, não encontrou Muaziza nem a filha. Sobre a mesa posta estava o seu almoço ainda quente em travessas bem tapadas.
[…]. Quando o Catarino da Silva tomou conhecimento da fuga de Muaziza, felicitou o sócio com grandes demonstrações de júbilo. – Ó homem, foi a sorte grande que te saiu – bradava ele, rodopiando com o seu passinho saltitante – estava a ver que nunca mais te safavas da negra. Fugiu e fez ela muito bem. Espertalhona como é, deve ter percebido que já era altura de cavar. Teve mais juízo que tu com os teus tolos escrúpulos em manda-la embora. E quanto à mulatinha, deixa-a estar com a mãe. […] A escolha recaiu na jovem Maria Adelaide, única filha do patrão da Capitania do Porto. Não era ao partido tão brilhante como a mulher de Catarino da Silva. Mas era uma rapariga de trato afável […]
Com efeito, o «baile dos finalistas» do Liceu Salazar é considerado, todos os anos, o maior acontecimento social de Lourenço Marques. Para além dos professores, alunos e seus familiares, a ele só tem acesso a mais alta burguesia colonial, e conta coma presença do próprio Governador-Geral. Apesar disso, - pensa D. Violante – ela, o marido e a filha, uns simples mulatos, lá estarão graças ao facto de Celina ter chegado ao 7º ano.
[…] - Precisamos conversar – diz o reitor por fim, pondo a caneta em cima do mata-borrão.
[…]. Quero avisar-vos que não podem ir ao baile dos finalistas – prossegue calmamente o reitor, pousando nos jovens o seu olhar ausente míope…
Celina não pode acreditar no que está a ouvir. As fontes latejam-lhe e uma náusea incontrolável amortece-lhe os sentidos. Dificilmente consegue permanecer de pé, a ouvir a voz do reitor que lhe soa tão suave, tão longínqua […]. - Sem dúvida que vocês compreendem – continua ele – há certas coisas que é preciso dar tempo ao tempo. Vem o senhor Governador-Geral e pessoas que não estão habituadas a conviver com gente de cor. E vocês também não haviam de sentir-se à vontade no meio delas! Para evitar aborrecimentos de parte a parte, achamos melhor vocês não irem ao baile. Seria muito aborrecido que…
Depois de deixar o gabinete do reitor, Celina não voltou ao salão nobre. Saiu apressadamente do Liceu e pôs-se a vaguear sem destino pelas ruas, e Quenado cansada e um pouco febril, regressa enfim a casa, já o pai tinha ido para o trabalho e a mãe está a descansar no quarto.
Quando mais tarde, D. Violante vai de novo trabalhar para a sala de costura, dá logo pela falta do vestido de Celina que deixara pendurado. Sorrindo intimamente, dirige-se para o pequeno quarto onde dorme a filha, pois calcula que tenha sido ela quem levou o vestido, talvez para o apreciar melhor. Mas o que observa, ao abrir a porta, deixa-a muda de espanto e indignação. Sentada na cama, Celina corta, à tesoura, o seu lindo vestido branco. – Estás doida?! – Grita a mãe, passado o primeiro momento de estupefacção. Celina não responde, nem sequer levanta os olhos. Calmamente, determinadamente, continua a cortar o vestido em pequeninos pedaços que se espalham pelo chão como frágeis e vaporosas nuvens desfeitas pelo vento.

Ninguém matou Suhura

O senhor administrador acaba de abotoar o último botão do safari cor de amêndoa. A imagem que o espelho lhe devolve não lhe desagrada […]. Sente-se em perfeita forma quanto ao seu aspecto físico. Além disso, tem plena consciência da auréola que o envolve devido à elevada posição que ocupa na Ilha, onde é simultaneamente Administrador de Distrito e Presidente da Câmara. […]
Na sala de jantar o senhor administrador toma o pequeno-almoço, aguarda-o o velho Assane. Impecavelmente fardado de branco, afasta-lhe a cadeira para se sentar e serve-o em silêncio com gestos sóbrios e precisos. […]
Sorri intimamente à perspectiva da aventura desta tarde. Não é a primeira nem será a última. Sente-se ainda jovem e com direito a procurar fora do lar a satisfação de necessidades que considera legítimas. […]
A macuazinha que o espera esta tarde, conheceu-a na rua do celeiro. Passeava ele de riquexó numa tarde quente e a rapariga caminhava à sua frente com duas companheiras, em direcção ao merca de peixe. De repente, num movimento breve e ocasional ela olhou para trás a rir. E a impressão que nesse instante o seu rosto causou ao senhor administrador jamais ele a soube definir.
Na semipenumbra do seu quarto e abafado, Suhura acorda sorrindo ao novo dia que desponta. Contudo, não tem qualquer motivo para sorrir. Aos quinze anos é analfabeta, órfã de pai e mãe extremamente pobre. Além disso, vai morrer antes de o dia findar.
São cinco horas da manhã. Porém a luz do dia já penetra a jorros iluminando cruamente o quarto de mataca carcomida e tecto sem forro, onde se atracavam a quitanda de Suhura, uma velha mala de latão assente sobre quatro pedregulhos, e a quitanda da avó. […]
A atitude insólida da avó deixa a rapariga confusa e sem vontade de se ocupar das suas tarefas diárias. Mesmo assim, em pouco tempo varre e limpa o minúsculo quintal e a palhota que e também pequena e quase desprovida de moveis. Em seguida, […]. Dos quintais chegam vozes abafadas de mulheres. Crianças nuas, de ventres inchados brincam à soleira das portas escancaradas das palhotas. De vez em quando, uma fila de patos marrecos atravessa as ruelas de repente deixando atrás de si um rasto de fezes.
Seis vezes tem ela que fazer o percurso que separa a palhota do fontenário. Deita-se depois, exausta, no meio do quintal. Não se movem, a não ser para de vez em quando enxotar as moscas que zumbem encarniçadas á sua volta. […] Não consegue afastar do pensamento imagem da avó fitando-a em silêncio e carregando penosamente o quitundo dos mucates. […]
No fim dia, o senhor administrador não pode reprimir um gesto de contrariedade quando, ao abrir a porta do quarto onde se encontra Suhura, depara com ela de pé e completamente vestida. Também lhe desagrada o medo tão patente nos olhos da rapariga. – mas esta gaja está mesmo morta de susto! – pensa ele enquanto se despe. […] Como se aguardasse apenas tal convite para agir. Suhura precipita-se para a porta e o senhor administrador quase não chega a tempo de impedir-lhe a fuga. Com uma calma que está longe de sentir, fecha a porta e vai pôr a chave no bolso das suas calças.
Suhura sente agora que não pode tolerar qualquer contacto físico com este desconhecido que avança para ela, com o ventre a tremer, e procura fugir-lhe a todo custo. Trava-se então uma luta surda e feroz que o desejo cego do senhor administrador e desespero da rapariga prolongam até à exaustão vence o mais forte. Num breve instante, o homem e a rapariga encaram-se de frente.
Mas a verdade é que Suhura recusara ser possuída pelo ilustre e este tentando forçar a menor a manter relações sexuais com sigo, terá entrado numa furiosa e estúpida agitação que terá causado a morte da Suhura. O corpo inerte conserva uma obstinada atitude de recusa e uma flor de sangue contorna-lhe as magras coxas. […]
Para além de um irritado espanto, o senhor administrador sente apenas uma estranha curiosidade em conhecer a causa desta morte: teria violentado a rapariga de tal modo que provocasse uma hemorragia fatal? Ou, no meio da sua estúpida agitação, teria ela própria batido com a nuca na cabeceira da cama? Ou morrera de puro susto?

O último pesadelo

- Não…não…não podem… não podem fazer isso… oh não… nããão…. Flora acorda sobressaltada com os gritos do marido que, sentado na cama, a fixa com os olhos vítreos e o rosto alagado em suor. […]
Foi em 1961, na Gabela, onde Eugénio vivia há cerca de um ano. Embora residisse há tão pouco tempo nessa vila. Nasceu em Espinho, conhecida praia do norte de Portugal […]. Um dia, tinha ele doze anos, a mãe, cansada as constantes aventuras extra-conjugadas do marido e os inerentes mais tratos, resolveu fugir de casa com um homem que há muito a cortejava sem que fosse correspondido.
[…] Eugénio e o agrimensor mantinham longas conversas sobre o memento político que viviam. E a sua secreta simpatia ia para o M.P.L.A, pois o profundo sentido de justiça que ambos possuíam levava-os a concordar que os angolanos lutassem pela independência da sua terra, mão grado os privilégios pessoais que viessem a perder.
A grande maioria embriagava-se com os slogans profundamente difundidos pela rádio e pela imprensa. E descansavam a sua consciência no cómodo preconceito de que todos os guerrilheiros eram terroristas, incapazes de governar, e que Angola pertencia de direito aos portugueses. Eugénio evitava discutir este assunto com quem quer que fosse, á excepção do agrimensor. […]
Eram cerca de dez horas da noite quando já deitado, Eugénio ouviu os primeiros gritos. Largou o livro que estava a ler e pôs-se à escuta. Era, brados lancinantes e desesperados que o fizeram saltar da cama e correr para o local donde eles provinham. Este devia ser o quarto de arrecadação do hotel pois objectivos velhos ou quebrados que deviam estar por ali espelhados, atravancam-se nos cantos e junto às paredes. […]
Eugénio relacionou então o silêncio e os olhares cúmplices dos hóspedes na sala de jantar com o que estava a desenrolar-se à sua frente. Entretanto, o sangue esguichava por todos os lados, empapando os negros e atingindo já as paredes e alguns espectadores. O velho Sabonete quase morto, quando reconheceu Eugénio entre os espectadores que se aglomeravam junto à porta, tentou arrastar-se até ele, fitando-o com olhos suplicantes. Eugénio sempre o tratara, pelo menos, com humanidade, além disso, estabelecera-se entre eles uma espécie de alegre camaradagem, baseada no senso de humor que ambos possuíam. […]
- Parem! – gritou Eugénio a tremer – Não podem fazer isto! Parem! Ele próprio se admirou da força dos seus gritos, a ponto de ter dominado aquele alarido infernal. Os outros colonos encaram-no estupefactos, deixando de berrar e de brandir os paus.
 - O que foi? – perguntou por fim Osório, suspendendo as chambocadas e virando, de má vontade, o rosto suado e sulpicado […]
Eram duas horas da madrugada quando o último negro se imobilizou no chão. Houve depois, da parte dos assistentes, a preocupação de verificar se na verdade os negros estavam todos mortos. Satisfeitos com o exame, arrumaram os corpos depois serem enterrados no mato. Só depois então Regalo permitiu que Eugénio se retirasse.
 - Agora podes ir, bandido. Some-te da minha vista! – gritou acentuando propositadamente o tratamento por tu.
Desse último instante Eugénio guarda a lembrança de corpos intumescidos, pedaços de miolos colados nas paredes, e um cheiro intenso a fezes e a sangue. […] Deixou-se ficar imóvel de olhos fechados, sentindo a brisa acariciar-lhe o rosto escaldante. Já o dia começava a clarear quando ouviu alguém chamar por si. Era Osório em frente de um grupo agitado e ruidoso.
[…]. Eugénio olhou-o incrédulo. Por um momento pensou que o outro estivesse a zombar dele, mas logo compreendeu que não. falava sério. Do seu ponto de vista, se Eugénio tinha boa pontaria, porque não havia de acabar com um negro moribundo? Queria responder, a todo o grupo que aguardava ansiosamente a sua resposta, que não era um assassino e não desejava participar naquele massacre. Mas tinha a certeza que ninguém lhe perdoaria tais palavras. […].
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