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Classificação dos Ossos

2.3 Classificação dos Ossos

Segundo a localização topográfica dos ossos, podemos classificá- los em ossos axiais e apendiculares. Os ossos axiais são aque-les que formam o eixo principal do corpo, é o caso dos ossos da cabeça, do pescoço e do tronco, enquanto que os ossos apendiculares formam os apêndices do corpo, isto é, estão localizados nos membros superiores e nos membros inferiores.
A classificação que faremos a seguir leva em consideração a forma
(morfologia) dos ossos pelo fato de eles apresentarem características morfológicas diferentes. Por isso, eles são classificados quanto à sua forma em: longos, alongados, planos, irregulares e curtos. Existem ainda alguns ossos que, por suas características funcionais, podem ser classificados à parte. É o caso dos ossos pneumáticos e os sesamóides.
a)       Ossos longos
São aqueles ossos em que o comprimento é maior do que a largura e a espessura, além disso, eles apresentam como característica principal a presença de canal medular. Outras características que encontramos nos ossos longos (veja a Figura 2.2) são a presença de um corpo (diáfise), de duas extremidades (epífise distal e proximal), de uma região de transição entre as epífises e a diáfise

(metáfise distal e proximal) e de uma cavidade na diáfise que aloja a medula óssea (canal medular). Esses ossos estão situados nos membros superiores e inferiores como o úmero, o rádio, o fêmur e a tíbia etc.
a)       Ossos alongados

São aqueles ossos em que o comprimento predomina sobre a argura e a espessura, só que esse tipo de osso não possui canal medular. Esses ossos são representados pelas costelas e pelas clavículas, conforme ilustra a Figura 2.3.

b)      Ossos planos ou laminares
São aqueles ossos cujo comprimento e largura predominam sobre a espessura. Esses ossos estão localizados principalmente na calota craniana, como é o caso do osso parietal, e nas raízes dos membros superiores e inferiores, como é o caso do osso da escápula e o osso do quadril, respectivamente (veja a Figura 2.4).



c)       Ossos curtos
São aqueles ossos em que o comprimento, a largura e a espessura se equivalem. A Figura 2.5 a seguir mostra exemplos desses ossos distribuídos principalmente na mão e no pé.


d)      Ossos irregulares
São ossos que apresentam uma forma diferente de qualquer figura geométrica conhecida. Ossos localizados na coluna vertebral
(vértebras) e na cabeça (mandíbula) são exemplos que caracterizam os ossos irregulares (veja a Figura 2.6).

e)       Ossos pneumáticos
São aqueles ossos que apresentam uma cavidade interna contendo ar. Essa cavidade é revestida de mucosa e denominada de seio. Encontramos esses ossos situados adjacentes à cavidade nasal.
É o caso dos ossos: frontal, maxila, etmóide e esfenóide, todos localizados no crânio e na face, conforme visto na Figura 2.7.
a)       Ossos sesamóides
São pequenos ossos que se desenvolvem dentro de tendões ou da cápsula articular. Ossos que se desenvolvem na substância dos tendões são denominados de intratendíneos, e os que se desenvolvem na substância da cápsula articular são chamados periarticulares.
A patela (veja a Figura 2.8) é um exemplo específico de osso sesamóide intratendíneo. O pé e a mão são os locais mais comuns onde se encontram ossos sesamóides periarticulares.



Osteologia comparada

2. Osteologia comparada

A Osteologia é a parte da Anatomia que estuda os ossos. O corpo humano possui 206 ossos classificados em ossos axiais e apendiculares. Os ossos axiais localizam-se na cabeça, no pescoço e no tronco, e os ossos apendiculares localizam-se nos membros superiores e inferiores.
O esqueleto tem a importante função de sustentar e dar forma ao corpo. Ele torna possível a locomoção e protege os órgãos internos. Nesta etapa você entrará em contato com os conceitos referentes a ossos e esqueleto e assim poderá classificar e descrever os ossos quanto à sua forma: seus acidentes, sua vascularização, sua arquitetura e seu revestimento. Será capaz de identificar e classificar os tipos de esqueleto, bem como descrever suas funções. E conhecerá mais especificamente os ossos do esqueleto axial e apendicular.

2.1. Generalidades e Conceitos

O sistema esquelético forma um arcabouço ósseo importante na proteção das vísceras, na conformação e na sustentação do corpo, no sistema de alavancas biológicas, na produção de células sanguíneas, além de ser o depósito de íons Ca e P.
O termo “osteologia” deriva do grego “osteon”, que significa osso, e “Logus”, que significa estudo. Então, podemos dizer que Osteologia é a parte da Anatomia que estuda os ossos. Por outro lado, os ossos são estruturas rígidas, esbranquiçadas, constituídas de tecido conjuntivo mineralizado e que reunidas entre si participam na formação do esqueleto. Portanto, ao conjunto de ossos e cartilagens que reunidos entre si dão conformação ao corpo, proteção e sustentação de partes moles damos o nome de esqueleto

2.2. Número de Ossos do Corpo Humano


O nosso corpo possui 206 ossos, mas esse número pode variar levando-se em consideração dois fatores. O primeiro critério é o fator etário, em que o indivíduo pode apresentar ossos que não se fundem, permanecendo separados na vida adulta. Por exemplo, o osso frontal pode permanecer separado por uma sutura na vida adulta. O segundo fator é o critério de contagem, neste caso, o anatomista pode ou não considerar alguns ossículos como parte da constituição do esqueleto. O exemplo mais comum são os ossículos da orelha média (ouvido), que para alguns anatomistas são considerados e para outros não são computados durante a contagem dos ossos do corpo.


REFERÊNCIAS
Anatomia Comparada: Sistema Esquelético, disponível em:
DUARTE, Hamilton Emídio Anatomia Humana, BIOLOGIA/EAD/UFSC, Florianópolis,
2009.
Faculdade e Escola Técnica Egídio José da Silva Fategídio, Apostila de Anatomia e Fisiologia Humanas, S/E, Maio/2009
PIRES, Gustavo Martins, Osteologia, disponível em:

Relação da Didáctica Com Outras Ciências

Segundo Tavares(2011:13), Didática é a parte da Pedagogia que utiliza estratégias de ensino destinadas a colocar em prática as directrizes da teoria pedagógica, do ensino e da aprendizagem.

Didáctica é um ramo da ciência pedagógica que tem como objectivo de ensinar métodos e técnicas que possibilitam a aprendizagem do aluno por parte do professor ou instrutor. É uma disciplina prática ainda que tenha como base as teorias pedagógicas que analisam os métodos mais convenientes a aplicar-se. A didáctica concretiza estes métodos em situações específicas escolhendo os melhores caminhos em cada caso para chegar a uma determinada meta. (idem).
Para Tavares (2011), didáctica significa simplesmente ensinar, explicar e instruir ao aluno com técnicas de explicação para melhor formação do mesmo nos âmbitos de estudos ao que se há proposto. Didáctica é uma disciplina pedagógica concentrada no estudo dos processos de ensino e aprendizagem, que busca a formação e o desenvolvimento instrutivo e formativo dos estudantes.
Segundo Tavares (2011), citando Libâneo, diz que a didáctica é o principal ramo de estudo da Pedagogia. Ela investiga os fundamentos, as condições e os modos de realização da instrução e do ensino. A ela cabe converter objectivos sociopolíticos e pedagógicos em objectivos de ensino, seleccionarconteúdos e métodos em função desses objectivos.

Relação da didáctica com a Sociologia


Segundo o Modulo da UCM (2010), a didáctica relaciona –se com varias outras ciências como a sociologia, está indica as formas de trabalho que permitem desenvolver a solidariedade, a liderança, a responsabilidade, no contexto de iterações sociais, pois a aprendizagem acontece no contexto socialmente construído o que implica reconhecer o papel dessas relações na educação dos alunos.

Relação com a Biologia
A biologia orienta sobre o desenvolvimento físico, e os índices de fadiga dos alunos, a nutrição e a herança também tem seu peso na aprendizagem. (idem).

Relação com a Psicologia

A psicologia indica a didáctica as oportunidades que melhor favorecem a expansão ou desenvolvimento da personalidade bem como os processos que melhor garantem a efectivação da aprendizagem. UCM (2010)

Relação com Filosofia

Uma doutrina pedagógica fundamenta-se numa teoria filosófica, ou seja, toda pedagogia supõe uma filosofia. O valor da nossa doutrina de educação depende da nossa concepção do homem e da vida. A didáctica, como parte da pedagogia,
Também está colocada numa concepção filosófica. Até o século XIX, fundamentava-se exclusivamente na filosofia. No século passado, a psicologia atingiu o status de ciência. Assim, os aspectos filosóficos da didácticapassaram a fundamentar-senas ciências do comportamento, em especial, na psicologia ena biologia.
Nesse aspecto, há uma relação directa entre filosofia epedagogia. A filosofia, entendida como reflexão sistemáticasobre a concepção da vida, e a pedagogia, como reflexãosistemática sobre o ideal da educação e da formaçãohumana de uma sociedade. A didática, por sua vez, comoparte integrante da pedagogia, também se baseia numaconcepção de homem e sociedade, portanto, subordina-se apropósitos sociais, políticos e pedagógicos para a educaçãoescolar, a serem estabelecidos em função da realidade socialde cada povo.Disponível em (http://books.google.co.mz/books?id=0vf-up72K7gC&pg).

Relação com a Pedagogia

Pedagogia é uma ciência que tem como objecto de estudo a educação. Claro que a palavra se utiliza para designar curso, ou disciplina, mas é mesmo uma ciência, infelizmente influenciada por muitos pseudocientistas ou charlatões que se acham no direito de dissertar sobre educação. Pedagogia é a ciência que tem por objecto de estudo a Educação, o processo de ensino e aprendizagem. O sujeito é o ser humano enquanto educando.Para tal a pedagogia apoia –se da didáctica para lhe fornecer técnicas, métodos e meios de ensino. 

Depreciação pelo método de linha recta

3.5.1. Método da linha recta

Neste método, o encargo anual é o mesmo para todos os anos da vida útil do activo, isto é, oferece o mesmo serviço durante cada um dos períodos de operação. O encargo por ano obtém-se dividindo a base de depreciação entre o total de anos de serviço, isto é:
 onde:
  • R, representa a depreciação linear;
  • C, é o preço de aquisição (preço original);
  • Cn, o valor de resgate (residual); e
  • n,  a vida útil do activo em anos.

Da relação fundamental, podemos concluir que:
Neste método, o encargo anual é o mesmo para todos os anos da vida útil do activo, isto é, oferece o mesmo serviço durante cada ano dos períodos de operação. O encargo anual obtem-se dividindo a base de depreciação e o total de anos de serviço.
Exercício 01: depreciação anual 
A CETA lda., comprou uma máquina niveladora no valor de 121.000,00 Mts. Se estima que está terá 5 anos de vida útil e 13.200 Mts de valor de resgate (residual). Usando o método de linha recta, pretende-se obter a depreciação anual e a representação do respectivo quadro de depreciação. 
Resposta: a máquina depreciará anualmente em 21.560 meticais, durante os 5 anos em que estará em serviço.
Assim, o quadro de depreciação da máquina niveladora será o seguinte:
Note-se que:
  • Na terceira coluna está depreciação acumulada, que resulta da soma de depreciações anuais até esse período.
  • Na quarta conluna encontramos o valor contábil, que se obtém achando a diferença entre o preço de aquisição (valor original) e a depreciação acumulada.
  • O valor contabilístico, é o valor do activo no final de qualquer período.
O valor contabilístico ao final do k-ésimo ano, no método de linha recta, é dado pela seguinte expressão:


NOTA:
O artigo completo contempa os seguintes itens:




Depreciação e métodos de cálculo da depreciação

Com excepção dos terrenos e alguns outros bens, o valor de quase todos os activos se reduz com o tempo desde o momento da sua aquisição ou no momento em que começa a sua utilização. Esta perda de valor denomina-se depreciação e é causada princpalmente pelo uso, insuficiência do próprio bem.
No artigo em anexo a esta postagem, arrolamos sobre a Depreciação e seus métodos de cálculo. É conveniente e de gande utilidade, dispor de diferentes métodos para depreciar os activos e estimar o seu valor real em qualquer momento.
Trazemos neste, os métodos mais usuais para calcular os encargos da depreciação tendo em conta que, geralmente, se avaliam em períodos anuais.
Em cada um dos métodos em alusão, envolve-se o aumento que ocorre no valor de activos devido à inflação e outros factores que levam a que, ao longo do tempo, o bem seja comercializado a um preço superior ao estabelecido na lei, mesmo considerando os efeitos da depreciação. 

Para VILALLOBOS (2007: 532), “é a perda de valor de um activo fixo e tangível, em consequência de sua insuficiência, uso ou obsolescência”.

A depreciação constitui um gasto períodico, geralmente anual, por isso que constitui uma renda e se denota por R.


Factores causadores da depreciação

São vários os factores que causam a depreciação. Dentre eles, destaca-se o envelhecimento de equipamentos não só pelo uso, mas também, principalmente, pelo avanço tecnológico.

Tipos de depreciação

·        Real
É a diferença entre o preço de aquisição de um bem antes do uso e o seu valor residual ou resgate após determinado tempo de uso, é naturalmente difícil de ser calculada e de levar em consideração a correção monetária do período em análise. (CASTANHEIRA & MACEDO, 2006: 140)
·        Teórica
Este tipo de depreciação é mais fácil de ser calculada, uma vez que se utiliza fórmulas preestabelecidas. (Idem) 


Métodos de depreciação

Os métodos mais usuais para o cálculo da depreciação são os seguintes, que se classificam em três grupos:

1. Com médias
·        De linha recta ou linear;
2. Com encargos decrescentes
·        De soma de dígitos
·        De taxa fixa
3. Com juros compostos

·        De fundo de amortização.



UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA


No "pobre Moçambique" viver do salário é algo que se mostrou impossível nos últimos tempos. Milhões de moçambicanos, funcionários têm o seu rendimento mensal dependente do Estado. Poucos são os que se lembram do antigo e sempre novo ensinamento: "da terra originastes, da terra alimentarte-eis, da terra sereis próspero". 


Anos passaram-se, muitos dos que apostaram no emprego decente como a única forma de aquisição da riqueza vê-se obrigados a regressar aos campos de cultivo pois o salário não sai. E se sai, este não cobre as necessidades mais importantes no seio das famílias devido a subida do preço dos bens e serviços. 


A moderna sociedade moçambicana é caracterizada por possuir um excesso de preferências no consumo de bens e serviços essenciais. Isto porque maior parte da classe trabalhadora veio do campo, cansada dos velhos hábitos, da vida medíocre que levavam, das condições alimentares e ambientais precárias. 


Estes pensam estar um passo à frente quando na verdade deram dois passos para trás. Preferem passar o tempo num escritório com boas condições de ventilação mas sem rendibilidade - esta é a preguiça mental, que faz com que ao aproximarmo-nos dos dias 23 de cada mês teçamos reclamações sobre Estado com as mãos a coçar na cabeça, enquanto nos dias anteriores estavam ou encontravam-se nos bolsos, ou sobre uma secretária, ou por entre as pernas.


Nos campos, as mamanas e os papás gritam: "as nossas terras ainda são produtivas. Há de cair sobre o campo a chuva de que tanto precisamos". Nos centros urbanos ouve-se um eco dos assalariados: "as minhas mãos não voltaram a tocar o cabo de enxada. Fazer machamba, eu?" 
.....................................

De Alberto Traquinho

TEMA INDEFINIDO




Quotidianamente deparo-me com situações constrangedoras. Umas advindas da carne e outras da alma. 
Em mim encontro uma batalha que pouco sei dizer sob quais circunstâncias iniciou. 
Da alma soam vozes alertando-me sobre as possíveis consequências dos meus actos e factos. Da carne nascem vontades e ilusões que seduzem os meus olhos, atacam a consciência, afugentando a razão.
Em cada parir do sol, sinto que a minha mente embebeda-se do vinho da imperfeição que a natureza humana oferece. Aos muitos a satisfação da parte carnal encarrega-se de arrastar-me ao ponto morto da perfeição. 

De alma dominada e coberta por uma nuvem negra que acompanha os meus dias de juventude, somente penso em diversão como a direcção certa. 

Com miolos dispersos em partes incertas do corpo, pensando com as mãos e agindo com a boca os dias se passam sem ao menos olhar para o lado recto da vida. É como se os olhos tivessem sido rodados à 180° graus, marcando passos para frente enquanto olho a traseira da natureza. Esqueço-me que o futuro depende em grande parte do que se vê à frente, nos lados e não de eventos passados.

"Todo passado já foi presente. O reflexo facial (vida futura) é resultado de uma visão frontal (vida presente)". Alberto Saué (2015)

Educação nas sociedades modernas

1.Breve Abordagem e Conceitos

Neste começo de um novo milénio, a educação apresenta-se numa dupla encruzilhada: de um lado, o desempenho do sistema escolar não tem dado conta da universalização da educação básica de qualidade; de outro, as novas matrizes teóricas não apresentam ainda a consistência global necessária para indicar caminhos realmente seguros numa época de profundas e rápidas transformações. 

A educação corresponde a toda modalidade de influências e inter-relações que convergem para a formação de traços de personalidade social e de carácter, implicando uma concepção de mundo, ideais, valores, modos de agir, que se traduzem em convicções ideológicas, morais, políticas, religiosas, princípios de acção frente a situações reais e desafios da vida prática. Implica, portanto, “uma busca realizada por um sujeito que é o homem” (FREIRE, 1988, p.70). Assim, a educação em cada sociedade assume um conjunto de características peculiares, os seres humanos se educam para que suas vidas tenham significados e sentidos próprios. 

Durante séculos, a acção intencional de educar da humanidade vem sendo modificada, adaptando o ser humano a novas realidades. Ficamos de 6 a 8 mil anos plantando com a intenção de colher. Nesse período, a prática educativa consistia na aquisição de instrumentos para o plantio e para a colheita. Na Idade Média, a acção intencional de educar da humanidade esteve envolvida com a formação do ser humano apoiada pela fé, toda produção era para enriquecimento da Igreja e dos grandes feudos (GRISPUN, 2000).
Na Idade Moderna, início do século XIX, o advento da Revolução Industrial ocasionou a mudança da acção intencional da humanidade com uma recodificação da realidade, empurrando o ser humano para a modernização, consubstanciando a transição da sociedade feudal para a sociedade capitalista burguesa. Nasceu uma nova classe social, a burguesia, e uma nova sociedade, a capitalista. Essa nova organização económica e social influenciou directamente na organização social de hoje: pertencemos a uma sociedade ocidental, capitalista, dividida socialmente em classes sociais: a burguesia e o trabalhador. (LARCHER, 2010: 18) 

No início da Idade Moderna, “a burguesia que se instalava no poder necessitava instrumentalizar-se culturalmente, formar seus quadros, formar o cidadão, preparar as elites para o avanço tecnológico, forjar escalões e difundir sua visão de mundo às camadas populares” (GHIRALDELLI JR, 1991, p.23). Era preciso para tal, uma instituição oficial e eficiente – a Escola, e uma pedagogia eficaz – a Pedagogia Tradicional. Assim, cria-se a Escola, instituição moderna, organizadora de grandes redes de ensino que crescem em consonância com a disseminação da Pedagogia Tradicional.

Para LAKATOS (1990: 211), a sociedade de hoje parece dominada pelas "industrias do conhecimento", que não produzem bens e serviços e sim ideias e informações. Na década de 20, os homens da linha de montagem e os Operadores de maquinas semi-qualificados constituíam o centro da mão-de-obra, inclusive nos países desenvolvidos. "Hoje, o centro e o empregado com conhecimento, o homem ou mulher que aplica ao trabalho produtivo ideias, conceitos e informações, e não habilidade manual ou força muscular.

Actualmente é dominante a tese de que a educação tem um papel fundamental nos processos de desenvolvimento. Algumas agências internacionais, como o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), argumentam que os países pobres devem investir na educação de seu povo para superar suas alarmantes taxas de pobreza. (PACHECO & MENDONÇA, 2012: )

Seja qual for a perspectiva que a educação contemporânea tomar, uma educação voltada para o futuro será sempre uma educação contestadora, superadora dos limites impostos pelo Estado e pelo mercado, portanto, uma educação muito mais voltada para a transformação social do que para a transmissão cultural. Por isso, acredita-se que a pedagogia da práxis, como uma pedagogia transformadora, em suas várias manifestações, pode oferecer um referencial geral mais seguro do que as pedagogias centradas na transmissão cultural, neste momento de perplexidade.

Pela importância dada hoje ao conhecimento, em todos os sectores, pode-se dizer que se vive mesmo na  era do conhecimento, na sociedade do conhecimento, sobretudo em consequência da informatização e do processo de globalização das telecomunicações a ela associado.

Ladislau Dowbor (1998), após descrever as facilidades que as novas tecnologias oferecem ao professor, se pergunta: o que eu tenho a ver com tudo isso, se na minha escola não tem nem biblioteca e com o meu salário eu não posso comprar um computador? Ele mesmo responde que será preciso trabalhar em dois tempos: o tempo do passado e o tempo do futuro.
Hoje vale tudo para aprender. Isso vai além da “reciclagem” e da actualização de conhecimentos e muito mais além da “assimilação” de conhecimentos. A sociedade do conhecimento possui múltiplas oportunidades de aprendizagem: parcerias entre o público e o privado (família, empresa, associações, etc.); avaliações permanentes; debate público; autonomia da escola; generalização da inovação.

As consequências para a escola e para a educação em geral são enormes: ensinar a pensar; saber comunicar-se; saber pesquisar; ter raciocínio lógico; fazer sínteses e elaborações teóricas; saber organizar o seu próprio trabalho; ter disciplina para o trabalho; ser independente e autónomo; saber articular o conhecimento com a prática; ser aprendiz autónomo e a distância.

Como diz Ladislau Dowbor (1998: 259), a escola deixará de ser “lecionadora” para ser “gestora do conhecimento”. Segundo o autor, “pela primeira vez a educação tem a possibilidade de ser determinante sobre o desenvolvimento”.

A educação tornou-se estratégica para o desenvolvimento, mas, para isso, não basta “modernizá-la”, como querem alguns. Será preciso transformá-la profundamente.
Para Dewey, a escola deveria ser um ambiente de formação de um novo homem. Para isso, a sociedade não poderia ofertar uma educação qualquer. Deveria oferecer um processo educativo vivenciado em uma nova escola, pautada em valores democráticos. As práticas democráticas deveriam ser observadas na relação professor-aluno, no material didáctico utilizado, nos métodos pedagógicos aplicados. Todas as acções dessa nova escola deveriam estar voltadas para um objectivo: ter o aluno como actor principal no ambiente escolar.

Dewey pensou e criou um novo ambiente escolar para desenvolver sua proposta pedagógica. A escola é uma instituição em que os indivíduos passam boa parte de suas vidas, transitam da infância para a maioridade. Esse longo período de escolarização deveria ser utilizado para a realização de experiências concretas. Assim, o processo educativo ofereceria aos educandos condições para que resolvessem por si sós seus problemas.

A escola nova requer trabalhadores em educação bem preparados. O educador deve ser sensível para motivar os alunos; perspicaz para descobrir o que motiva as crianças e o que desperta seus interesses. Tendo como ponto de partida os interesses dos alunos, estes se entregariam às experiências que, por sua vez, ganhariam um verdadeiro valor educativo.
Ao mesmo tempo, uma escola democrática, que prioriza os alunos e suas inquietações, desenvolve outras virtudes, como o esforço e a disciplina.

A escola seria, então, um laboratório, um local de experiências que, purificado das imperfeições da sociedade, formaria sujeitos capazes de influir positivamente no meio social, implementando novas estruturas democráticas.

A nova escola formaria indivíduos aptos para uma vida social cooperativa, em que as decisões são obtidas por meio de acordos amparados na livre participação de todos. Ao mesmo tempo, a educação estaria sintonizada com as mudanças que ocorrem no mundo. E propiciaria oportunidades para todos alcançarem as conquistas asseguradas pela sociedade democrática.

A educação actuaria assim, na renovação constante dos costumes e não na sua preservação. No entanto, tal renovação de costumes tem como limite a sociedade democrática. Caso fosse supostamente atingida essa meta, não haveria o que mudar na sociedade.

Resumo da Obra "Ninguém Matou Suhura" de Lilia Momplé: por Alberto Traquinho



1. Biografia da autora

Lília Maria Clara Carrière Momplé nasceu em 19 de Março de 1935, na mítica Ilha de Moçambique, localizada ao norte do país, na província de Nampula. Concluiu seus estudos secundários na capital da colónia, na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo). Na universidade, frequentou durante dois anos o curso de Filologia Germânica, deixando-o para formar-se em Serviço Social no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Depois de uma temporada na Grã-Bretanha (durante 1964) e de outra no Brasil (de 1968 a 1971), a escritora regressa definitivamente a Moçambique no ano de 1972.
Encerrados os seus estudos em Lisboa, Lília Momplé trabalhou como funcionária da Secretaria de Estado da Cultura como directora do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural de Moçambique (FUNDAC) e como secretária-geral da Associação de Escritores de Moçambique (AEMO), durante o período de 1995 a 2001. De 1997 a 2001, acumulou, juntamente com a função de secretária-geral da AEMO, a função de presidente da Instituição. Durante o período em que esteve na Presidência da Associação, não mediu esforços para aumentar a visibilidade das mulheres nas publicações da Instituição. Foi também representante do Conselho Executivo da Unesco, no período compreendido entre 2001 e 2005.
Apesar de suas colaborações dispersas na imprensa, Lília Momplé destaca-se no cenário da literatura moçambicana por seus três livros: Ninguém matou Suhura (contos, 1988), Neighbours (romance, 1996) e Os olhos da cobra verde (contos, 1997). Em 2001, foi agraciada com o Prêmio Caine para Escritores de África, com o conto “O baile de Celina”. Além desse prémio, recebeu também o 1º Prêmio de Novelística no Concurso Literário do Centenário da Cidade de Maputo, com o conto “Caniço”. Esses dois contos foram originalmente publicados em seu primeiro livro, Ninguém matou Suhura. Lília Momplé tem livros traduzidos para o inglês e o alemão por editoras de reconhecido prestígio, tal como a Heinman.

13. Resumo da obra

Aconteceu em Saua-Saua

Mussa Racua aproxima-se lentamente da palhota de Abudo. Todo o cansaço de um dia inteiro de caminhadas infrutíferas se concentra no olhar, cuja melancolia serenidade reflecte uma tristeza sem esperança. […]
Abudo á a sua última esperança. Contudo, uma esperança tão remota e fugidia que, longe de o animar, o enche de pavor. Não recua só para justificar a si próprio que lutou até ao fim.
[...]. Dão-se as mãos à maneira dos macuas do litoral, apertando-as duas vezes, obliquamente. […]. Abudo já deve saber o que o amigo procura. As palhotas de Saua-Saua são dispersas, mas, por qualquer estranha razão, as notícias de morte e de desgraça propagam-se rapidamente, como que levadas pela inquieta aragem que acaricia as folhas das mangueiras.
[…] – Mas tu já viste, irmão, que vida é a nossa? – interrompe Mussa Racua – vem essa gente da Administração e marca-te um terreno. Dão-te sementes que não pediste e dizem: tens que tirar daqui três ou seis ou sete sacos, conforme lhes dá na cabeça. E se por qualquer razão adoecemos ou não cai chuva ou a semente é ruim, e não conseguimos entregar o arroz que eles querem, lá vamos nós parar às plantações. E os donos das plantações ficam contentes porque conseguem uma data de homens para trabalhar de graça. E a gente da Administração fica contente porque recebe dos donos das plantações um tanto por cabeça que entrega. E nós é que vamos rebentando de medo e de trabalho todos os anos. E mal podemos cuidar das nossas machambas que nem dão para comer.
[…]. A plantação é terror de todos os negros, mesmo daqueles que nunca lá estiveram. Abudo tem sido um bom amigo. Muitas vezes o salvara da plantação emprestando-lhe todo o arroz que lhe sobrava, depois de entregar o exigido pela Administração. […]
E de repente, a solução há tanto tempo procurada surge-lhe tão simples, tão natural, tão evidente, que se admira de a não ter encontrado muito antes.
Na escuridão enluarada do pequeno quarto sente a mulher a dormir um sono agitado […].
Maissa só acorda com a primeira claridade da amanhã e, num instante põe-se fora da quitanda. […]. Apesar do alegre coro da passarada que canta nos ninhos pendentes das árvores, o silêncio da palhota oprime-lhe o coração. Onde estará o marido? Porque não o ouve ela esta manhã? […]
O ventre pesa-lhe, mas ela começa a correr como se quisesse chegar a tempo de impedir uma desgraça. Sempre a correr resolve ir  a estrada principal. Mas, pouco a pouco, o pressentimento que lhe oprime o peito vai-se tornando uma certeza. Já não corre nem grita […] . E é quase sem surpresa que, ao dobrar um carreiro, dá cm o corpo de Mussa Racua suspenso de uma mangueira, balouçando docemente ao sabor da brisa matinal. Tomado no chão, um saco cheio de arroz
Horas depois, um camponês seco e esfarrapado é introduzido quase à força no gabinete do administrador. […]. È, pois, com verdadeiro alívio que recebe ordem para se retirar e apressa-se a sair às arrecuas, arrastando as pernas magras e trémulas.
Sem o ver, o administrador segue-o com os olhos até à posta. Depois, voltando-se para o Língua, mas falando mais para si próprio, desabafa com uma raiva impaciente: - Estes cães assim que lhes cheira trabalho, arranjam sempre chatices. Ou fogem ou suicidam-se. Maldita raça!

O caniço

Como sempre, Naftal desperta sem vontade. O quarto onde dorme cheira a suor e a mofo, pois é um compartimento demasiado pequeno para albergar quatro pessoas. […]. O pai trabalhou vários anos nas minas do John e de vez em quando vinha visitar a família. […]. Efectivamente, pouco tempo depois de o pai ter partido, receberam a notícia da sua morte. As minas tinham-lhe comido as forças e a carne, como a tantos outros negros parte de Moçambique perseguindo sonhos de riqueza. […]
Entretanto a carreira de Aidinha como prostituta foi fulgurante e breve. Apesar da fakta de experiencia, ou talvez por isso mesmo, ela agradava aos homens que procuravam a casa da Aurora Caldeira […]. Aí, os frequentadores dos cabarés disputavam-na, chegando alguns sul-africanos brancos a evolverem-se à pancada por sua causa. Ela, por sua vez, sugava-lhes o dinheiro, e deleitava-se a vê-los esmurrarem-se por causa de uma negra. […]. Só quando passou a escarrar sangue se convenceu que estava realmente doente. E então, já nem teve forças para impedir que as companheiras a levassem para o hospital.
[…]. E assim Aidinha regressou à palhota, onde se encontra há cerca de um mês. Passa os dias deitada, impregnando o quarto do forte cheiro a bolacha característico dos tuberculosos e morrendo um pouco em cada dia.
Naftal aceita a doença e a morte próxima da irmã como aceitou a morte do pai nas minas do John, a miséria quotidiana, o medo e as humilhações. Para ele, tudo faz parte do destino dos negros. Por isso, como sempre, hoje também desperta sem vontade, pois nada espera do dia que começa. […]
[…]. Ao ouvi-lo, um dos irmãozinhos corre a estender-lhe a esteira. Naftal deita-se logo, de costas, com as palmas das mãos voltadas para cima, sentindo a dor que nasce na porta dos dedos irradiando por todo o corpo, como um arrepio de febre. […]. Contudo, quando o sol começa a penetrar pelas frestas das paredes de caniço, Naftal acorda, embora, como sempre, desperte sem vontade.
Estendidos na esteira, os irmãos ainda dormem, respirando suavemente de boca aberta. No quarto ao lado, Aidinha tosse. De uma palhota próxima chega o choro precocemente tímido de uma criança […].

O baile da Celina

- É lindo! - Suspira Leonor, contemplando o vestido. D. Violante não responde, mas o rosto resplandece-lhe de orgulho ao pendurar a obra-prima que lhe sai das mãos. Acaba de dar os últimos pontos no vestido de organza branca que sua filha Celina levará ao baile dos finalistas do Liceu Salazar. […]. Dr. Bordalo Monteiro (pai de Maria Claudina), Benjamim Castelo, Muaziza.
Maria Claudina tinha dezoito anos quando catarino da Silva a pediu em casamento. E para a surpresa de todos, e um pouco dele próprio, foi aceite. A rapariga seguiu certamente os conselhos da mãe que, depois do que sofrera com a família nobre do marido considerava uma verdadeira bênção o casamento da filha com um homem simultaneamente plebeu e riquíssimo. A boda realizou-se com grande pompa. […].
Um dia, ao chegar a casa para almoçar, não encontrou Muaziza nem a filha. Sobre a mesa posta estava o seu almoço ainda quente em travessas bem tapadas.
[…]. Quando o Catarino da Silva tomou conhecimento da fuga de Muaziza, felicitou o sócio com grandes demonstrações de júbilo. – Ó homem, foi a sorte grande que te saiu – bradava ele, rodopiando com o seu passinho saltitante – estava a ver que nunca mais te safavas da negra. Fugiu e fez ela muito bem. Espertalhona como é, deve ter percebido que já era altura de cavar. Teve mais juízo que tu com os teus tolos escrúpulos em manda-la embora. E quanto à mulatinha, deixa-a estar com a mãe. […] A escolha recaiu na jovem Maria Adelaide, única filha do patrão da Capitania do Porto. Não era ao partido tão brilhante como a mulher de Catarino da Silva. Mas era uma rapariga de trato afável […]
Com efeito, o «baile dos finalistas» do Liceu Salazar é considerado, todos os anos, o maior acontecimento social de Lourenço Marques. Para além dos professores, alunos e seus familiares, a ele só tem acesso a mais alta burguesia colonial, e conta coma presença do próprio Governador-Geral. Apesar disso, - pensa D. Violante – ela, o marido e a filha, uns simples mulatos, lá estarão graças ao facto de Celina ter chegado ao 7º ano.
[…] - Precisamos conversar – diz o reitor por fim, pondo a caneta em cima do mata-borrão.
[…]. Quero avisar-vos que não podem ir ao baile dos finalistas – prossegue calmamente o reitor, pousando nos jovens o seu olhar ausente míope…
Celina não pode acreditar no que está a ouvir. As fontes latejam-lhe e uma náusea incontrolável amortece-lhe os sentidos. Dificilmente consegue permanecer de pé, a ouvir a voz do reitor que lhe soa tão suave, tão longínqua […]. - Sem dúvida que vocês compreendem – continua ele – há certas coisas que é preciso dar tempo ao tempo. Vem o senhor Governador-Geral e pessoas que não estão habituadas a conviver com gente de cor. E vocês também não haviam de sentir-se à vontade no meio delas! Para evitar aborrecimentos de parte a parte, achamos melhor vocês não irem ao baile. Seria muito aborrecido que…
Depois de deixar o gabinete do reitor, Celina não voltou ao salão nobre. Saiu apressadamente do Liceu e pôs-se a vaguear sem destino pelas ruas, e Quenado cansada e um pouco febril, regressa enfim a casa, já o pai tinha ido para o trabalho e a mãe está a descansar no quarto.
Quando mais tarde, D. Violante vai de novo trabalhar para a sala de costura, dá logo pela falta do vestido de Celina que deixara pendurado. Sorrindo intimamente, dirige-se para o pequeno quarto onde dorme a filha, pois calcula que tenha sido ela quem levou o vestido, talvez para o apreciar melhor. Mas o que observa, ao abrir a porta, deixa-a muda de espanto e indignação. Sentada na cama, Celina corta, à tesoura, o seu lindo vestido branco. – Estás doida?! – Grita a mãe, passado o primeiro momento de estupefacção. Celina não responde, nem sequer levanta os olhos. Calmamente, determinadamente, continua a cortar o vestido em pequeninos pedaços que se espalham pelo chão como frágeis e vaporosas nuvens desfeitas pelo vento.

Ninguém matou Suhura

O senhor administrador acaba de abotoar o último botão do safari cor de amêndoa. A imagem que o espelho lhe devolve não lhe desagrada […]. Sente-se em perfeita forma quanto ao seu aspecto físico. Além disso, tem plena consciência da auréola que o envolve devido à elevada posição que ocupa na Ilha, onde é simultaneamente Administrador de Distrito e Presidente da Câmara. […]
Na sala de jantar o senhor administrador toma o pequeno-almoço, aguarda-o o velho Assane. Impecavelmente fardado de branco, afasta-lhe a cadeira para se sentar e serve-o em silêncio com gestos sóbrios e precisos. […]
Sorri intimamente à perspectiva da aventura desta tarde. Não é a primeira nem será a última. Sente-se ainda jovem e com direito a procurar fora do lar a satisfação de necessidades que considera legítimas. […]
A macuazinha que o espera esta tarde, conheceu-a na rua do celeiro. Passeava ele de riquexó numa tarde quente e a rapariga caminhava à sua frente com duas companheiras, em direcção ao merca de peixe. De repente, num movimento breve e ocasional ela olhou para trás a rir. E a impressão que nesse instante o seu rosto causou ao senhor administrador jamais ele a soube definir.
Na semipenumbra do seu quarto e abafado, Suhura acorda sorrindo ao novo dia que desponta. Contudo, não tem qualquer motivo para sorrir. Aos quinze anos é analfabeta, órfã de pai e mãe extremamente pobre. Além disso, vai morrer antes de o dia findar.
São cinco horas da manhã. Porém a luz do dia já penetra a jorros iluminando cruamente o quarto de mataca carcomida e tecto sem forro, onde se atracavam a quitanda de Suhura, uma velha mala de latão assente sobre quatro pedregulhos, e a quitanda da avó. […]
A atitude insólida da avó deixa a rapariga confusa e sem vontade de se ocupar das suas tarefas diárias. Mesmo assim, em pouco tempo varre e limpa o minúsculo quintal e a palhota que e também pequena e quase desprovida de moveis. Em seguida, […]. Dos quintais chegam vozes abafadas de mulheres. Crianças nuas, de ventres inchados brincam à soleira das portas escancaradas das palhotas. De vez em quando, uma fila de patos marrecos atravessa as ruelas de repente deixando atrás de si um rasto de fezes.
Seis vezes tem ela que fazer o percurso que separa a palhota do fontenário. Deita-se depois, exausta, no meio do quintal. Não se movem, a não ser para de vez em quando enxotar as moscas que zumbem encarniçadas á sua volta. […] Não consegue afastar do pensamento imagem da avó fitando-a em silêncio e carregando penosamente o quitundo dos mucates. […]
No fim dia, o senhor administrador não pode reprimir um gesto de contrariedade quando, ao abrir a porta do quarto onde se encontra Suhura, depara com ela de pé e completamente vestida. Também lhe desagrada o medo tão patente nos olhos da rapariga. – mas esta gaja está mesmo morta de susto! – pensa ele enquanto se despe. […] Como se aguardasse apenas tal convite para agir. Suhura precipita-se para a porta e o senhor administrador quase não chega a tempo de impedir-lhe a fuga. Com uma calma que está longe de sentir, fecha a porta e vai pôr a chave no bolso das suas calças.
Suhura sente agora que não pode tolerar qualquer contacto físico com este desconhecido que avança para ela, com o ventre a tremer, e procura fugir-lhe a todo custo. Trava-se então uma luta surda e feroz que o desejo cego do senhor administrador e desespero da rapariga prolongam até à exaustão vence o mais forte. Num breve instante, o homem e a rapariga encaram-se de frente.
Mas a verdade é que Suhura recusara ser possuída pelo ilustre e este tentando forçar a menor a manter relações sexuais com sigo, terá entrado numa furiosa e estúpida agitação que terá causado a morte da Suhura. O corpo inerte conserva uma obstinada atitude de recusa e uma flor de sangue contorna-lhe as magras coxas. […]
Para além de um irritado espanto, o senhor administrador sente apenas uma estranha curiosidade em conhecer a causa desta morte: teria violentado a rapariga de tal modo que provocasse uma hemorragia fatal? Ou, no meio da sua estúpida agitação, teria ela própria batido com a nuca na cabeceira da cama? Ou morrera de puro susto?

O último pesadelo

- Não…não…não podem… não podem fazer isso… oh não… nããão…. Flora acorda sobressaltada com os gritos do marido que, sentado na cama, a fixa com os olhos vítreos e o rosto alagado em suor. […]
Foi em 1961, na Gabela, onde Eugénio vivia há cerca de um ano. Embora residisse há tão pouco tempo nessa vila. Nasceu em Espinho, conhecida praia do norte de Portugal […]. Um dia, tinha ele doze anos, a mãe, cansada as constantes aventuras extra-conjugadas do marido e os inerentes mais tratos, resolveu fugir de casa com um homem que há muito a cortejava sem que fosse correspondido.
[…] Eugénio e o agrimensor mantinham longas conversas sobre o memento político que viviam. E a sua secreta simpatia ia para o M.P.L.A, pois o profundo sentido de justiça que ambos possuíam levava-os a concordar que os angolanos lutassem pela independência da sua terra, mão grado os privilégios pessoais que viessem a perder.
A grande maioria embriagava-se com os slogans profundamente difundidos pela rádio e pela imprensa. E descansavam a sua consciência no cómodo preconceito de que todos os guerrilheiros eram terroristas, incapazes de governar, e que Angola pertencia de direito aos portugueses. Eugénio evitava discutir este assunto com quem quer que fosse, á excepção do agrimensor. […]
Eram cerca de dez horas da noite quando já deitado, Eugénio ouviu os primeiros gritos. Largou o livro que estava a ler e pôs-se à escuta. Era, brados lancinantes e desesperados que o fizeram saltar da cama e correr para o local donde eles provinham. Este devia ser o quarto de arrecadação do hotel pois objectivos velhos ou quebrados que deviam estar por ali espelhados, atravancam-se nos cantos e junto às paredes. […]
Eugénio relacionou então o silêncio e os olhares cúmplices dos hóspedes na sala de jantar com o que estava a desenrolar-se à sua frente. Entretanto, o sangue esguichava por todos os lados, empapando os negros e atingindo já as paredes e alguns espectadores. O velho Sabonete quase morto, quando reconheceu Eugénio entre os espectadores que se aglomeravam junto à porta, tentou arrastar-se até ele, fitando-o com olhos suplicantes. Eugénio sempre o tratara, pelo menos, com humanidade, além disso, estabelecera-se entre eles uma espécie de alegre camaradagem, baseada no senso de humor que ambos possuíam. […]
- Parem! – gritou Eugénio a tremer – Não podem fazer isto! Parem! Ele próprio se admirou da força dos seus gritos, a ponto de ter dominado aquele alarido infernal. Os outros colonos encaram-no estupefactos, deixando de berrar e de brandir os paus.
 - O que foi? – perguntou por fim Osório, suspendendo as chambocadas e virando, de má vontade, o rosto suado e sulpicado […]
Eram duas horas da madrugada quando o último negro se imobilizou no chão. Houve depois, da parte dos assistentes, a preocupação de verificar se na verdade os negros estavam todos mortos. Satisfeitos com o exame, arrumaram os corpos depois serem enterrados no mato. Só depois então Regalo permitiu que Eugénio se retirasse.
 - Agora podes ir, bandido. Some-te da minha vista! – gritou acentuando propositadamente o tratamento por tu.
Desse último instante Eugénio guarda a lembrança de corpos intumescidos, pedaços de miolos colados nas paredes, e um cheiro intenso a fezes e a sangue. […] Deixou-se ficar imóvel de olhos fechados, sentindo a brisa acariciar-lhe o rosto escaldante. Já o dia começava a clarear quando ouviu alguém chamar por si. Era Osório em frente de um grupo agitado e ruidoso.
[…]. Eugénio olhou-o incrédulo. Por um momento pensou que o outro estivesse a zombar dele, mas logo compreendeu que não. falava sério. Do seu ponto de vista, se Eugénio tinha boa pontaria, porque não havia de acabar com um negro moribundo? Queria responder, a todo o grupo que aguardava ansiosamente a sua resposta, que não era um assassino e não desejava participar naquele massacre. Mas tinha a certeza que ninguém lhe perdoaria tais palavras. […].
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